Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
A enfiada de petas
Era uma vez um homem, que não pôde pagar a renda ao fidalgo de quem era caseiro, e foi-lhe pedir perdoança; o fidalgo pensou que o que elle estava era a mentir, e disse-lhe:, Só te perdôo as medidas da renda se me disseres uma mentira do tamanho de hoje e amanhã. Foi-se o lavrador para casa e contou a cousa á mulher sem saberem como se haviam de arranjar com o senhorio, que os podia pôr no olho da rua. Um filho tolo, que tinha, disse-lhe:, Oh meu pae, deixe-me ir ter com o fidalgo, que eu heide arranjar a cousa de modo que elle não tenha remedio senão dar a perdoança das medidas., Mas tu não atas cousa com cousa., Por isso mesmo.
Foi o tolo e pediu para fallar ao fidalgo, dizendo que vinha ali pagar a renda. O fidalgo mandou-o entrar, e elle então disse:, Saberá vossa senhoria, que a anneza foi má, mas isso não faz ao caso; meu pae tinha tantos cortiços de abelhas que não lhe dava com a conta; pôz-se a contar as abelhas e acertou de lhe faltar uma; botou o machado ás costas e foi procurar a abelha; achou-a pousada na carucha de uma amieira; vae elle cortou a amieira para caçar a abelha, que por signal vinha tão carregadinha de mel, que elle crestou-a, e não tendo em que guardar o mel metteu a mão no seio e tirou dois piolhos e fez da pelle dois odres que encheu, mas quando vinha a entrar em casa uma gallinha comeu-lhe a abelha; atirou á gallinha com o machado para a matar, mas o machado perdeu-se entre as pennas; chegou o fogo ás pennas, e depois que ellas arderam é que achou o olho do machado; d'ali foi ao ferreiro para lh'o arranjar, e o ferreiro fez-lhe um anzol, com que foi ao rio apanhar peixes, e saiu-lhe uma albarda, tornou a deitar o anzol e apanhou um burro morto ha trez dias que pestanejava; botou-se a cavallo n'elle e foi ao ferrador para lhe dar uma mézinha, e elle deu-lhe o remedio de summo de fava sêcca, mas n'isto caiu-lhe um boccado n'um ouvido, onde lhe nasceu tamanho faval, que tem dado favas e comido favas, que ainda ahi trago quinze carros d'ellas para pagar a renda a vossa senhoria.
O fidalgo já enfadado com tanta patranha disse:, Oh rapaz, tu mentes com quantos dentes tens na bocca., Pois, senhor, está a nossa renda paga. (Airão.) Notas 92. A enfiada de petas., Ha uma variante de Ourilhe, nos Contos populares portuguezes, n.º LVII.
End of chapter
Vesper stopped here. Sleep well.