Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
Os trez irmãos
Um homem tinha trez filhos, um seu e dois que a mulher lhe mettera em casa. O pae puchava para o seu filho, e a mulher puchava para os outros dois, e cada um promettera que havia de deixar os bens áquelle a quem mais amava. É certo que morreram sem testamento, e os trez irmãos não sabendo para quem ficariam os bens da casa, resolveram ir á cidade consultar um letrado. Quando iam pelo caminho, encontraram um homem muito azafamado, que lhes perguntou:, Oh patrõesinhos, viram passar por aqui a minha burra?
Os trez irmãos disseram que não tinham visto, e puzeram-se a rir entre si, dizendo:, Elle não era burra, era uma mula, e por signal que tinha o rabo torto; e ainda para mais era cega de um olho. O homem pescou o que elles diziam, e como era possante, gritou:, Ah, grandes birbantes, que me hãode dar já para aqui conta da minha mula. Era essa mesma que vocês dizem que não viram. Travaram-se de razões e lá foram todos para a cidade á presença do juiz.
O homem fez a sua queixa, e o juiz certo de que os homens sabiam onde estava a mula disse que o declarassem:, Saberá, senhor juiz, que não vimos mula nenhuma; este homem perguntou-nos se tinhamos visto passar por ali uma burra, e dissemos que não, porque o que tinha passado era uma mula. Disse o juiz:, Então como sabeis isso, se a não vistes?, É porque no chão estavam umas pégadas, em que os pés se botavam adiante das mãos, e assim é que andam as mulas, e isso era signal de ter por ali passado uma., E como sabeis que tinha o rabo torto, se é que a não vistes?, Saberá o senhor juiz que era por um campo de cevada, que ainda estava orvalhado, e para a banda para onde a mula tinha o rabo torto já o orvalho estava saccudido., Está bem; mas como sabéis que a mula era cega de um olho?, É porque pelo trilho que ella levava estava a cevada comida só de um lado; signal de que ella via só por um olho.
O juiz mandou os trez irmãos embora, e condemnou nas custas o dono da mula. N'isto os trez irmãos requereram ao juiz sobre o caso que os trazia á cidade para a partilha da herança. O juiz vendo que eram tão espertos e que não se entendiam, disse-lhes:, Vinde ámanhã a minha casa, que vos quero dar uma lebre guisada para o almoço, e então darei a sentença. Os trez irmãos foram ao outro dia muito contentes; o juiz mandou-os sentar á meza, e veiu a lebre guisada; elles comeram e lamberam o beiço., Então que tal é a lebre?
Diz-lhe d'ali um dos irmãos:, Ella não é lebre, é cão., Então como sabeis isso?, É porque botei um osso ao cão cá da casa, e elle não o quiz roer, porque é certo que os cães não se comem uns aos outros. O juiz confessou que era verdade, e disse:, Pois dou por sentença que hade ficar com a herança o que fôr capaz de ir á sepultura do pae cravar-lhe uma faca nos peitos. Disseram os dois mais novos:, Vou eu, vou eu! O mais velho, espantado, exclamou:, Já não quero os bens; eu sou lá capaz d'isso?
Então o juiz disse que aquelle é que era o verdadeiro filho, e escreveu a sentença a favor d'elle. (Airão.)
End of chapter
Vesper stopped here. Sleep well.