Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
A filha do rei mouro
Um rei mouro tinha duas filhas. A mais nova queria aprender a religião e andava ás escondidas com o camarista, que a ensinava. A mais velha vendo-a uma vez sair do quarto do camarista, disse-lhe:, Deixa estar, mana, que o pae hade saber tudo., Ai menina! disse o camareiro, se o rei sabe que anda a aprender a resar commigo, estamos perdidos., Não tenhas mêdo; alevanta-te de madrugada, aparelha dois cavallos e vamos para a tua terra.
Assim fez; ella encheu tres saccos, um de cinza, outro de sal, e outro de carvão, e foram-se ambos por esse mundo fóra. Quando o rei soube da fugida, mandou a sua tropa para agarrarem o camarista e a filha, e que os matassem onde quer que os encontrassem. A cavallaria correu a toda a brida, e estava já quasi a pilhal-os, quando o camarista, olhando para traz, gritou:, Ai menina, estamos perdidos., Não tenhas mêdo. E a menina despejou o saco de cinza e fez-se logo um nevoeiro tão cerrado, que a tropa não pôde dar mais um passo, e voltaram para traz a dizer ao rei:
Armou-se tamanho nevoeiro, Que não viamos caminho nem carreiro. O rei mandou-os avançar de novo, e que lhe trouxessem a princeza e o camarista presos., Ai menina, estamos perdidos! disse o camarista vendo a cavallaria quasi a alcançal-os., Não tenhas mêdo. E despejou o sacco de sal, e fez-se logo ali um grande mar, que os soldados não poderam atravessar. Voltaram outra vez para traz e foram dizer ao rei: Real senhor, achamos um grande mar
Que os cavallos não poderam passar. O rei deu outra vez ordem de ir agarrar a filha e o camarista:, Ai menina, estamos perdidos., Não tenhas mêdo. E despejou o sacco do carvão, e logo se fez uma noite muito escura, com grandes trovoadas e relampagos. As tropas voltaram, e foram dizer ao rei: Real senhor, fugimos em debandada Com tantos raios e tamanha trovoada. O camarista já estava perto da sua terra, e a princeza disse-lhe:, Eu salvei-te da morte; mas agora em chegando á tua terra já te não lembras mais de mim.
Assim aconteceu. Ella com tristeza vestiu-se de viuva, e pôz uma estalagem para poder viver. O camarista convidou tres amigos, e disse-lhes :, Havemos ir cada um por sua vez pernoitar áquella estalagem. Foi o primeiro, e disse que desejava ficar ali aquella noite. A estalajadeira disse que sim. Elle ficou muito contente. Quando foi para o quarto, começou a despir-se e a vestir-se, a despir-se e a vestir-se e ficou n’isto até de manhã, em que já estava muito cançado.
Assim que foi dia a estalajadeira, que tinha visto tudo do andar de cima, disse-lhe que se pozesse no meio da rua, porque tinha estado a fazer zombaria da sua casa. Veiu o segundo, e tambem pediu para pernoitar; levou toda a noite a despir e a vestir a camisa, sem poder parar. Pela manhã tambem foi posto fóra com igual descompostura. Veiu o terceiro; pediu para pernoitar, e ella deu-lhe licença. Quando se ia deitar, disse que tinha muita sêde:, Pois vá ao quintal, e tire agua d’aquelle poço.
Toda a noite o pobre do homem esteve dando á nora, e só quando foi de dia é que appareceu a estalajadeira, que o fez parar e o pôz fóra, dizendo que tinha vindo fazer zombaria da sua casa. Chegou o quarto amigo, e tambem pediu para pernoitar; ficou muito contente com a licença, porque os outros guardaram sempre o segredo do que lhes acontecera. Quando a estalajadeira estava deitada, disse:, Ai que me esqueceu fechar a porta da rua., Vou eu fechal-a.
E toda a noite o hospede andou para cá e para lá a fechar a porta da rua, até que pela manhã estava estafado, e a estalajadeira o pôz fóra, por lhe querer quebrar a porta. Os quatro amigos reuniram-se e contaram uns aos outros o succedido. Mas ainda assim o camarista, que era um d’elles, não se lembrava nem por nada da amante que abandonara com tanta ingratidão. Como elle estivesse para casar na sua terra, segundo o costume, tinha de dar um jantar tres dias antes do casamento ás pessoas com quem visinhava.
Foi tambem convidar a estalajadeira viuva. Ella foi ao jantar. Quando estavam todos á mesa, combinou-se que cada um contaria a sua historia:, A senhora, apesar de estar com esse desgosto, hade tambem contar o seu conto. A estalajadeira pediu que lhe apresentassem duas tijellas. Bateu com uma na outra, e appareceram um pombo e uma pomba. E disse a pomba :, Não te lembras quando me ensinavas a resar ás escondidas de meu pae? Disse o pombo:, Lembro-me., E não te lembras quando minha irmã disse que ia contar tudo ao pae, e que disseste: Ai que estamos perdidos?
E assim foi perguntando, e o pombo respondendo a tudo o que se tinha passado com a filha do rei mouro. Só ao fim de muitas perguntas é que os convidados começaram a reparar em circumstancias que se tinham dado com os quatro amigos, e o camarista conheceu a sua ingratidão:, Real senhora, eu é que sou esse esquecido; e já desfaço aqui este casamento, para receber quem por mim deixou pae e mãe e a sua terra. (Extremadura e Algarve.) Notas 6.
A filha do rei mouro., Ha uma outra versão intitulada Grisme e Guiomar, nos Contos nacionaes para crianças, n.º XV. Porto, 1883. No Violier des Histoires romaines (Gesta Romanorum), cap. V, vem esta situação sem o maravilhoso da fuga dos dois amantes. No Pentamerone, de Basile, é Petusinella, que foge lançando successivamente tres nozes, que recebem varias transformações. Nos Contos zulus, de H. Callaway, ha o de uma rapariga perseguida pelos canibaes, que vae deixando cair atraz de si grãos de sésamo.
O mesmo em um conto russo em que a Boba-Yaga corre atraz de uma rapariga. O mesmo episodio apparece no Aprendiz do Mago, n.º 11. O conto n.º 17, o Cavallinho das sete côres, é uma variante notavel, pelo episodio do esquecimento produzido pelo abraço em uma pessoa de casa. As transformações dos amantes que fogem, acham-se nos contos esthonianos, citados por Gubernatis, de Kreuzenwal. (Myth. zoologique, t. I, p. 180.) Vide nota 1, in fine, acerca do syncretismo do conto da Filha da Feiticeira.
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Vesper stopped here. Sleep well.