Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
Março Marçagão
Era uma vez um homem, que casou com uma mulher desmazellada, e depois dizia o homem: Oh mulher, oh mulher, Eu mercára-te uma roca… A mulher:, Isso não, marido, não Que me fal’-a cara torta; C’o dinheiro e co’a roca Compraremos um burrinho, O burrinho leva os odres, E os odres leva o vinho. Marido:, Oh mulher, oh mulher, Eu mercára-te umas meias… A mulher:, Isso não, marido, não Que me fal’-as pernas cheias. Antes com esse dinheiro Compraremos um burrinho,
O burrinho leva os odres E os odres leva o vinho. 68. OUTRO Dil-o o homem:, Oh mulher, tu não fias? tu não trabalhas?, É um dia santo muito grande, não se póde hoje trabalhar. Ao outro dia elle perguntou o mesmo, e ella o mesmo respondeu, e elle disse assim:, Deixa, que ahi vem o Março Marçagão que elle t’o dirá., E eu pego n’umas poucas de esteiras e boto-as no primeiro de Março a córar., Elle não quer esteiras, quer antes meadas.
O marido na vespera do primeiro de Março pegou n’um capote muito velho, cobriu-se para fingir um velho muito corcovado, e a mulher pela manhã cedo levantou-se e foi pôr muitas esteiras a córar; e elle appareceu-lhe ali em velho e disse assim:, Essas são as meadas que tu tens para córar?, São., Então teu marido não te dizia? Espera, que eu te fallo. Pega n’um páo, bateu, bateu até não poder mais, e deixou-a por morta. Assim que ella se pôde erguer foi para casa.
A primeira cousa foi comprar roca e fiar. Depois já dizia o homem:, Então era o que te eu dizia ou não? Março, Marçagão Cura meadas Esteiras não. Notas 67 e 68. Março marçagão., Publicado pela primeira vez pelo sr. Leite de Vasconcellos, na Vanguarda, n.º 75 e 76. O março é mythificado nos anexins populares portuguezes. Em uma versão que colligimos o estribilho era: Eu sou o Março Marão, Que curo meadas e esteiras não.
End of chapter
Vesper stopped here. Sleep well.