Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
O camareiro do rei
Era uma vez um rei que era muito amigo dos seus camaristas, e prometteu a cada um um dote para se casarem. Um d’elles quiz ir viajar para escolher mulher que fosse linda, esperta e honrada. Chegou a uma grande quinta, e logo nos primeiros degráos que davam para a casa encontrou uma menina linda a mais não ser. Pediu pousada, e veiu um velho lavrador que o recebeu com boas maneiras e foi-lhe mostrar a casa:, Que tal lhe parece?, Acho-a excellente; mas só o frontispicio é que está muito baixo.
Foi o velho lavrador mostrar-lhe os seus campos e sementeiras:, Então que tal as acha?, Muito boas, se não estiverem já comidas. O lavrador nada percebia do que ouvia; porque a fachada da casa era alta, e tinha ainda as tulhas cheias de grão. Á noite appareceu á mesa uma magnifica gallinha, que a filha do lavrador trinchou, dando a cabeça ao pae, as azas á mãe, os pés para o hospede, e ficou com o peito para si. O lavrador não quiz perguntar á filha por que é que fazia aquillo; mas de noite, no seu quarto, contou á mulher a conversa com o camareiro, e notou como a filha tinha trinchado a gallinha.
A filha que ouviu tudo do seu quarto, disse de lá:, Eu sei o que queria dizer o nosso hospede; o frontispicio da casa que era muito baixo, dizia-o por mim, porque me encontrou no patamar da escada; a ceára já comida referia-se ao caso de meu pae ter dividas, por que o que colhesse era tudo para as pagar., Muito bem, disse o pae; e agora me dirás, porque me deste á ceia a cabeça da gallinha para mim, as azas a tua mãe, e os pés ao nosso hospede?, Dei a meu pae a cabeça, porque a si lhe compete o governo da casa; a minha mãe as azas, para agasalhar a familia; ao hospede as pernas, porque elle anda em viagem; para mim o peito, para ser forte contra as desgraças que por amor d'elle me vierem.
O camarista ouviu tudo, e já gostava da menina por que era formosa, e ainda ficou mais encantado com a sua esperteza. No outro dia resolveu pedil-a ao pae, que lhe deu o consentimento. Veiu com ella viver para a côrte, mas não quiz apresentar a mulher ao rei. O rei andava desconfiado que não seria bonita, e jurou de a vêr, désse por onde désse. Rondava-lhe a rua, mas as janellas estavam sempre com as cortinas corridas; por fim sempre comprou uma criada, que o deixou entrar no quarto da senhora quando ella estava dormindo e tinha o marido fóra da terra.
O rei jurou-lhe que não lhe poria mão, e que era só para vêl-a. Entrou no quarto de dormir pé ante pé, e viu uma bella camilha com cortinas de damasco verde, cerradas; abriu-as, e viu a cara mais linda do mundo. N'isto vem a criada de repente dizer para que fugisse, porque chegava o amo. O rei com a pressa deixou cair uma luva. O camareiro veiu para o seu quarto e a primeira cousa que viu foi a luva; ficou desconfiado, e nunca mais tratou bem a mulher.
Era um inferno em casa. A criada com remorsos de ter feito aquillo áquelles bem casados, foi contal-o ao rei. O rei lembrou-se de que tinha perdido a luva, e mandou chamar o camareiro, e disse-lhe:, Tendes-me feito uma grande desfeita em nunca me terdes apresentado a vossa mulher para a conhecer., Senhor, é que ella é muito doente., Pois sim, ámanhã vou jantar á vossa casa. No dia seguinte foi. A mulher do camareiro foi a ultima a sentar-se á mesa, e assim que se sentou, como havia mais de um anno que não comia com o marido, desatou a chorar.
O rei perguntou-lhe porque é que ella chorava tanto. Ella respondeu: Eu era amada do coração, Hoje não o sou, nem sei porque não. Respondeu o camareiro: Quando eu na minha vinha entrei, Rasto de ladrão achei. Respondeu o rei: Eu fui o tal ladrão Que na tua vinha entrei; Verdes parras arredei; Lindos cachos de uvas vi; Mas juro-te á fe de Rei Que eu nas uvas nem buli. O rei explicou como as verdes parras eram os cortinados de damasco, como vira os braços descobertos, e como se fôra embora tendo-lhe caído uma luva com a pressa.
O camareiro ficou muito contente, percebeu os perigos da grande curiosidade, e nunca mais fechou a mulher, que na côrte era conhecida por todos como a mais linda, esperta e honrada. (Algarve.) Notas 59. O camareiro do rei., Este conto tem uma referencia historica, sendo os personagens Frederico II e Pedro de Vigues. Esta anedocta teve larga vulgarisação, porque acha-se não só nas Dames galantes de Brantome, como no Livro de Sendabar, no Mischlé sendabar, no Syntipas grego, e nos Sete Vizirs, com o titulo Rasto de Leão.
Nas tradições populares italianas tambem está vigorosa, e acha-se nos Contos de Pomigliano de Vittorio Imbriani. Por esta versão, em que ha alguns estribilhos poeticos, se vê o sentido das referencias á vinha, da versão do Algarve. Tambem se repete na Sicilia e em Veneza. (Vid. Rev. des Deux Mondes, Nov. 1877, p. 144.) Eis a adivinha do conto italiano: Diz o rei: Una vigna no piantà. Per travers é intrà Chi la vigna ni ha goastà. Han fait gran peccà
Di far ains che tant mal. Diz a esposa: Vigna sum, vigna sarai, La mia vigna non fali mal. Responde Pedro: Se cossi è como è narrà Plu amo la vigna che fis mai. No conto veneziano vem as seguintes estrophes, que condizem com o dialogo rimado de Pedro de Vignes: A esposa: Vinha era, e vinha sou, Fui amada, e já o não sou. E não sei porque rasão A vinha perdeu a estimação. O camareiro: Vinha eras, vinha serás, Amada eras, e já o não serás. Pela pata do leão
A vinha perdeu a estimacão. O rei, comprehendendo e explicando tudo: N'aquella vinha eu entrei Em pampano algum toquei, Pelo sceptro que tenho aqui Nenhum fructo lá comi.
End of chapter
Vesper stopped here. Sleep well.