Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
O sargento que foi ao inferno
55. O SARGENTO QUE FOI AO INFERNO Havia n’uma terra um sargento, que era muito bom rapaz; um rico mercador tomou-lhe amisade, arranjou-lhe a baixa e tomou-o para seu empregado. Como o mercador tinha filhas, o sargento apaixonou-se por uma d’ellas; mas o mercador era muito desconfiado e nunca deixava sair as filhas de casa, mas pela grande conta em que tinha o rapaz elle mesmo lhe fallou para se fazer o casamento. Tudo corria muito bem; vae, acontece ir uma peça muito linda no theatro, e como as filhas desejassem vêr, pediram ao sargento, que só elle é que era capaz de apanhar licença do pae para as deixar ir vêr.
O mercador ficou carrancudo, mas deu licença, dizendo:, Deixo ir as minhas filhas com o senhor, mas com a condição, que quando der a ultima badalada da meia noite hãode-me estar aqui á porta. Disseram todos que sim, e partiram. Quasi perto da meia noite, o rapaz disse para a sua noiva, que era bom retirarem-se para casa. Mais um bocadinho, mais um bocadinho; pede d’aqui, pede d’ali, o que é certo é que já tinha dado a meia noite, e elles ainda longe de casa.
Assim que o rapaz bateu á porta, abriu-se logo de repente, e o mercador começou a bradar:, Foi assim que o senhor cumpriu as ordens que eu lhe dei? Ora trate já de arranjar as suas cousas, que nem já esta noite me fica em casa., Oh senhor, pois só por isto! E quando estava já para casar com sua filha! O velho respondeu-lhe:, Só tem um meio de poder casar com minha filha, e voltar para casa., Qual?, Vá ao inferno, e traga-me tres anneis que o diabo tem no corpo, dois debaixo dos braços, e outro n’um olho.
O rapaz achou aquillo impossivel; mas que remedio teve senão pôr-se a caminho. Na primeira terra a que chegou, pregou um edital em que dizia: «Quem quizer alguma cousa para o inferno, ámanhã parte um mensageiro.» Isto causou grande curiosidade, até que chegou aos ouvidos do rei, que mandou chamar o rapaz. Perguntou-lhe o rei:, Como é que você vae ao inferno?, Real senhor, por ora ainda não sei; ando em procura d’elle, e irei lá, dê por onde dér., Pois bem, disse o rei, quando encontrares o diabo, pergunta-lhe se elle sabe de um annel de muito valor que eu perdi, e do que ainda tenho grande desgosto.
Chegou o rapaz a outra terra e botou o mesmo annuncio. O rei tambem o mandou chamar:, Tenho uma filha que padece uma doença muito grande, e ninguem lhe acerta com o mal. Já que vaes ao inferno quero que saibas por lá onde é que estará a cura. O rapaz partiu sempre á procura do inferno, e foi dar a uma encruzilhada em que estavam dois caminhos, um com pégadas de gente, e outro com pégadas de ovelhas. Pensou, e por fim seguiu pelo caminho das pégadas de gente; ao meio d’elle encontrou um ermitão, de barbas brancas, que resava em umas contas muito grandes, e lhe disse:, Ainda bem que tomaste por este caminho, porque esse outro é o que vae para o inferno., Oh senhor!
e eu ha tanto tempo que ando á procura d’elle! O rapaz contou-lhe todo o acontecido; o ermitão teve compaixão d’elle, e disse:, Já que tens de ir ao inferno, vae, mas sempre leva comtigo estas contas, porque antes de lá chegares tens de passar um rio escuro, e hade ser um passaro que te hade levar para o outro lado; e quando elle te quizer afundar no rio, joga-lhe as contas ao pescoço. D’aqui em diante não sei mais o que te succederá.
Assim aconteceu. Chegado ao inferno o rapaz teve um grande medo, e viu para ali um forno vasio e escondeu-se dentro d’elle. Quando estava todo agachado, passou uma velha muito velha e viu-o., O menino aqui! Ora coitadinho, que é tão lindo; se o meu filho o visse matava-o, com certeza. O que veiu cá fazer? O rapaz contou tudo á mãe do diabo; a velha teve pena d’elle, e disse-lhe:, Olhe; pois deixe-se ficar aqui escondido, porque eu não sei quando o meu filho virá; elle está assistindo á morte do padre santo, que está nas agonias, e quer-lhe apanhar a alma.
O rapaz pediu á velha se sabia do diabo as perguntas de que trazia encommenda. Quando estavam n’estas conversas chegou o diabo bufando; a velha escondeu-o logo, e disse:, Anda cá, filho, para descansares; deita-te aqui no meu collo. O diabo deitou-se e ficou logo a dormir. A velha foi muito devagarinho com as unhas e arrancou-lhe um annel que tinha debaixo do braço. O diabo mecheu-se desesperado, gritando:, Isto o que é?, Ai, filho, fui eu que me deixei dormir, e dei uma pendedella em cima de ti.
Estava a sonhar com aquelle rei que perdeu o annel, e que nunca mais o tornou a achar., Pois é verdade esse sonho, respondeu o diabo; está debaixo de uma lage ao pé do repuxo do jardim. O diabo tornou a ficar a dormir; a velha surrateira arrancou-lhe o segundo annel. O diabo tornou a acordar desesperado:, Tem paciencia, filho; tornei-me a deixar dormir e a sonhar com a filha d’aquelle rei que nenhum medico sabe curar., Tambem é verdade; a doença d’ella é o sapo-sapão que está mettido no enxergão.
Tornou o diabo a dormir. Para arrancar o annel do olho é que foram os trabalhos. A velha tirou-o com um espeto, e o diabo com a dôr e zangado com as pendedellas, sahiu pela porta fóra. O rapaz recebeu tudo da velha; voltou para o mundo, quando ella chamou o passaro: «Menino, menino, menino.» Foi d’ali entregar as contas ao ermitão. Depois passou pela terra do rei que tinha perdido o annel, que lhe deu muito dinheiro quando o tornou a achar debaixo da lage.
Depois passou pela côrte do rei qµe tinha a filha doente, disse onde estava o sapo-sapão. A princeza melhorou logo, e o rei pediu-lhe para que dissesse a paga que queria., Quero que vossa magestade me dê o seu poder por oito dias. O rei mandou deitar um pregão para elle governar oito dias; o rapaz partiu logo para a terra do sogro, e deu ordem logo que lá chegou para o mercador dentro em meia hora lhe vir fallar á sua presença. O mercador foi, mas quando chegou era já mais de uma hora.
O rapaz disse:, Podia-o mandar matar, por me ter desobedecido, em vir depois da meia hora., Oh senhor, não me demorei por minha vontade., Pois sim. Mas porque não soube em tempo desculpar aquelle pobre sargento que pôz fóra de sua casa? O mercador conheceu então o antigo noivo de sua filha, que tinha sempre chorado, confessou o seu erro, e pediu-lhe de joelhos muitos perdões. O rapaz entregou-lhe os anneis do diabo, e n’esse mesmo dia casou com a sua namorada, por quem tinha mettido um pé no inferno. (Algarve.) Notas 55.
O Sargento que foi ao inferno., Apparece este conto na versão allemã de Grimm, Os tres cabellos de ouro do Diabo. (Vid. Contes Choisis, trad. Baudry, p. 138.)
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Vesper stopped here. Sleep well.