Contos Tradicionaes do Povo Portuguez O sargento que foi ao inferno

Contos Tradicionaes do Povo Portuguez

Teófilo Braga

O sargento que foi ao inferno

Chapter 57 of 219 8 min aloud CC BY-SA 4.0

55. O SARGENTO QUE FOI AO INFERNO Havia n’uma terra um sargento, que era muito bom rapaz; um rico mercador tomou-lhe amisade, arranjou-lhe a baixa e tomou-o para seu empregado. Como o mercador tinha filhas, o sargento apaixonou-se por uma d’ellas; mas o mercador era muito desconfiado e nunca deixava sair as filhas de casa, mas pela grande conta em que tinha o rapaz elle mesmo lhe fallou para se fazer o casamento. Tudo corria muito bem; vae, acontece ir uma peça muito linda no theatro, e como as filhas desejassem vêr, pediram ao sargento, que só elle é que era capaz de apanhar licença do pae para as deixar ir vêr.

O mercador ficou carrancudo, mas deu licença, dizendo:, Deixo ir as minhas filhas com o senhor, mas com a condição, que quando der a ultima badalada da meia noite hãode-me estar aqui á porta. Disseram todos que sim, e partiram. Quasi perto da meia noite, o rapaz disse para a sua noiva, que era bom retirarem-se para casa. Mais um bocadinho, mais um bocadinho; pede d’aqui, pede d’ali, o que é certo é que já tinha dado a meia noite, e elles ainda longe de casa.

Assim que o rapaz bateu á porta, abriu-se logo de repente, e o mercador começou a bradar:, Foi assim que o senhor cumpriu as ordens que eu lhe dei? Ora trate já de arranjar as suas cousas, que nem já esta noite me fica em casa., Oh senhor, pois só por isto! E quando estava já para casar com sua filha! O velho respondeu-lhe:, Só tem um meio de poder casar com minha filha, e voltar para casa., Qual?, Vá ao inferno, e traga-me tres anneis que o diabo tem no corpo, dois debaixo dos braços, e outro n’um olho.

O rapaz achou aquillo impossivel; mas que remedio teve senão pôr-se a caminho. Na primeira terra a que chegou, pregou um edital em que dizia: «Quem quizer alguma cousa para o inferno, ámanhã parte um mensageiro.» Isto causou grande curiosidade, até que chegou aos ouvidos do rei, que mandou chamar o rapaz. Perguntou-lhe o rei:, Como é que você vae ao inferno?, Real senhor, por ora ainda não sei; ando em procura d’elle, e irei lá, dê por onde dér., Pois bem, disse o rei, quando encontrares o diabo, pergunta-lhe se elle sabe de um annel de muito valor que eu perdi, e do que ainda tenho grande desgosto.

Chegou o rapaz a outra terra e botou o mesmo annuncio. O rei tambem o mandou chamar:, Tenho uma filha que padece uma doença muito grande, e ninguem lhe acerta com o mal. Já que vaes ao inferno quero que saibas por lá onde é que estará a cura. O rapaz partiu sempre á procura do inferno, e foi dar a uma encruzilhada em que estavam dois caminhos, um com pégadas de gente, e outro com pégadas de ovelhas. Pensou, e por fim seguiu pelo caminho das pégadas de gente; ao meio d’elle encontrou um ermitão, de barbas brancas, que resava em umas contas muito grandes, e lhe disse:, Ainda bem que tomaste por este caminho, porque esse outro é o que vae para o inferno., Oh senhor!

e eu ha tanto tempo que ando á procura d’elle! O rapaz contou-lhe todo o acontecido; o ermitão teve compaixão d’elle, e disse:, Já que tens de ir ao inferno, vae, mas sempre leva comtigo estas contas, porque antes de lá chegares tens de passar um rio escuro, e hade ser um passaro que te hade levar para o outro lado; e quando elle te quizer afundar no rio, joga-lhe as contas ao pescoço. D’aqui em diante não sei mais o que te succederá.

Assim aconteceu. Chegado ao inferno o rapaz teve um grande medo, e viu para ali um forno vasio e escondeu-se dentro d’elle. Quando estava todo agachado, passou uma velha muito velha e viu-o., O menino aqui! Ora coitadinho, que é tão lindo; se o meu filho o visse matava-o, com certeza. O que veiu cá fazer? O rapaz contou tudo á mãe do diabo; a velha teve pena d’elle, e disse-lhe:, Olhe; pois deixe-se ficar aqui escondido, porque eu não sei quando o meu filho virá; elle está assistindo á morte do padre santo, que está nas agonias, e quer-lhe apanhar a alma.

O rapaz pediu á velha se sabia do diabo as perguntas de que trazia encommenda. Quando estavam n’estas conversas chegou o diabo bufando; a velha escondeu-o logo, e disse:, Anda cá, filho, para descansares; deita-te aqui no meu collo. O diabo deitou-se e ficou logo a dormir. A velha foi muito devagarinho com as unhas e arrancou-lhe um annel que tinha debaixo do braço. O diabo mecheu-se desesperado, gritando:, Isto o que é?, Ai, filho, fui eu que me deixei dormir, e dei uma pendedella em cima de ti.

Estava a sonhar com aquelle rei que perdeu o annel, e que nunca mais o tornou a achar., Pois é verdade esse sonho, respondeu o diabo; está debaixo de uma lage ao pé do repuxo do jardim. O diabo tornou a ficar a dormir; a velha surrateira arrancou-lhe o segundo annel. O diabo tornou a acordar desesperado:, Tem paciencia, filho; tornei-me a deixar dormir e a sonhar com a filha d’aquelle rei que nenhum medico sabe curar., Tambem é verdade; a doença d’ella é o sapo-sapão que está mettido no enxergão.

Tornou o diabo a dormir. Para arrancar o annel do olho é que foram os trabalhos. A velha tirou-o com um espeto, e o diabo com a dôr e zangado com as pendedellas, sahiu pela porta fóra. O rapaz recebeu tudo da velha; voltou para o mundo, quando ella chamou o passaro: «Menino, menino, menino.» Foi d’ali entregar as contas ao ermitão. Depois passou pela terra do rei que tinha perdido o annel, que lhe deu muito dinheiro quando o tornou a achar debaixo da lage.

Depois passou pela côrte do rei qµe tinha a filha doente, disse onde estava o sapo-sapão. A princeza melhorou logo, e o rei pediu-lhe para que dissesse a paga que queria., Quero que vossa magestade me dê o seu poder por oito dias. O rei mandou deitar um pregão para elle governar oito dias; o rapaz partiu logo para a terra do sogro, e deu ordem logo que lá chegou para o mercador dentro em meia hora lhe vir fallar á sua presença. O mercador foi, mas quando chegou era já mais de uma hora.

O rapaz disse:, Podia-o mandar matar, por me ter desobedecido, em vir depois da meia hora., Oh senhor, não me demorei por minha vontade., Pois sim. Mas porque não soube em tempo desculpar aquelle pobre sargento que pôz fóra de sua casa? O mercador conheceu então o antigo noivo de sua filha, que tinha sempre chorado, confessou o seu erro, e pediu-lhe de joelhos muitos perdões. O rapaz entregou-lhe os anneis do diabo, e n’esse mesmo dia casou com a sua namorada, por quem tinha mettido um pé no inferno. (Algarve.) Notas 55.

O Sargento que foi ao inferno., Apparece este conto na versão allemã de Grimm, Os tres cabellos de ouro do Diabo. (Vid. Contes Choisis, trad. Baudry, p. 138.)

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Contents

Contos Tradicionaes do Povo Portuguez

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  1. 01 Advertencia Preliminar 15 min
  2. 02 Da Novellistica Popular 1 hr 3 min
  3. 03 A cara de boi 10 min
  4. 04 O velho Querecas 8 min
  5. 05 O surrão 5 min
  6. 06 A saia de esquilhas 7 min
  7. 07 As trez fadas 5 min
  8. 08 A filha do rei mouro 7 min
  9. 09 As fiandeiras 5 min
  10. 10 Cravo, rosa e jasmim 9 min
  11. 11 O magico 5 min
  12. 12 O mestre das artes 6 min
  13. 13 O aprendiz do Mago 5 min
  14. 14 A bixa de sete cabeças 7 min
  15. 15 O conde-soldadinho 3 min
  16. 16 A sardinhinha 6 min
  17. 17 Maria da Silva 5 min
  18. 18 A rosa branca na bocca 3 min
  19. 19 O cavallinho das sete côres 4 min
  20. 20 A muda mudella 4 min
  21. 21 O sapatinho de setim 7 min
  22. 22 A madrasta 4 min
  23. 23 O ovo e o brilhante 3 min
  24. 24 Cabellos de ouro 4 min
  25. 25 A carpinteirasinha 3 min
  26. 26 A filha do lavrador 4 min
  27. 27 A feia que fica bonita 4 min
  28. 28 O peixinho encantado 4 min
  29. 29 O figuinho da figueira 2 min
  30. 30 A da varanda 5 min
  31. 31 A noiva formosa 3 min
  32. 32 A noiva do corvo 4 min
  33. 33 A paraboinha de ouro 4 min
  34. 34 O principe que foi correr sua ventura 11 min
  35. 35 Maria Subtil 8 min
  36. 36 O coelho branco 3 min
  37. 37 Clarinha 4 min
  38. 38 Bola-Bola 2 min
  39. 39 Linda Branca 4 min
  40. 40 O Rei-Escuta 1 min
  41. 41 As cunhadas do rei 14 min
  42. 42 Os sete encantados 3 min
  43. 43 As sonsas 4 min
  44. 44 A mão do finado 14 min
  45. 45 O rei de Napoles 8 min
  46. 46 O matador dos bichos 5 min
  47. 47 As nozes 4 min
  48. 48 As trez cidras do amor 6 min
  49. 49 A bengala de dezeseis quintaes 18 min
  50. 50 A torre de Babylonia 5 min
  51. 51 Desanda cacheira 8 min
  52. 52 O sal e a agua 4 min
  53. 53 As crianças abandonadas 4 min
  54. 54 O afilhado de Santo Antonio 3 min
  55. 55 A filha do diabo 4 min
  56. 56 As trez maçãsinhas de ouro 5 min
  57. 57 O sargento que foi ao inferno 8 min
  58. 58 A princeza que adivinha 7 min
  59. 59 A adivinha do rei 3 min
  60. 60 O boi Cardil 5 min
  61. 61 O camareiro do rei 7 min
  62. 62 O Palmeiriz d'Oliva 5 min
  63. 63 O bolo refolhado 2 min
  64. 64 A mirra 3 min
  65. 65 A mulher curiosa 2 min
  66. 66 As favas 2 min
  67. 67 A velha das gallinhas 2 min
  68. 68 A Riqueza e a Fortuna 4 min
  69. 69 Março Marçagão 2 min
  70. 70 Alegria da viuva 3 min
  71. 71 A carpideira e a viuva 1 min
  72. 72 Frei João sem cuidados 3 min
  73. 73 João Ratão (ou Grillo 3 min
  74. 74 Os trez irmãos 4 min
  75. 75 As barras de ouro 3 min
  76. 76 Pedro de Malas-Artes 7 min
  77. 77 Santa Helena 3 min
  78. 78 O guardador de porcos 3 min
  79. 79 Nascer para ser rico 5 min
  80. 80 Dom Caio 3 min
  81. 81 Os dez anõesinhos da tia Verde-Agua 3 min
  82. 82 O compadre diabo 5 min
  83. 83 Os corcundas 2 min
  84. 84 A mulher gulosa 2 min
  85. 85 As irmãs gagas 1 min
  86. 86 O tinhoso, o ranhoso e o sarnoso 1 min
  87. 87 Dá-me o meu meio tostão 3 min
  88. 88 O soldado que foi para o céo 4 min
  89. 89 O thesouro do enforcado 3 min
  90. 90 Os peixes do guardião 1 min
  91. 91 A cobra e o cordão do frade 1 min
  92. 92 O caldo de pedra 2 min
  93. 93 A enfiada de petas 3 min
  94. 94 Sempre não 3 min
  95. 95 Manoel Feijão 4 min
  96. 96 Cahiu-me na minha catulinha 2 min
  97. 97 Casar e descasar 3 min
  98. 98 O cego e o moço 1 min
  99. 99 O cego e o mealheiro 2 min
  100. 100 O avarento 2 min
  101. 101 Os trez conselhos 4 min
  102. 102 O sacco das nozes 2 min
  103. 103 O sapateiro pobre 2 min
  104. 104 O signal da Nobreza 1 min
  105. 105 A estatua que come 2 min
  106. 106 As adivinhas em anexins 2 min
  107. 107 A mulher teimosa 1 min
  108. 108 O jogo do Pira 1 min
  109. 109 O caso do tio Jorge Coutinho 3 min
  110. 110 Os dois irmãos e a mulher morta 8 min
  111. 111 Os trez patrões 1 min
  112. 112 Para quem canta o cuco? 1 min
  113. 113 Tudo andaremos 1 min
  114. 114 A mulher que cegou o marido 1 min
  115. 115 O tolo e as moscas 1 min
  116. 116 Já que tanto teima 1 min
  117. 117 Tic-taco 2 min
  118. 118 As orelhas do abbade 1 min
  119. 119 Os duzentos carneiros 1 min
  120. 120 Lenda do Paraiso 1 min
  121. 121 Lenda da mãe de Sam Pedro 2 min
  122. 122 A tunica de Christo 1 min
  123. 123 O principe mendigo 1 min
  124. 124 O lavrador e o ermitão 1 min
  125. 125 O thesouro enterrado 1 min
  126. 126 As vozes dos animaes 2 min
  127. 127 Os ditados novellescos 4 min
  128. 128 Litteratura dos Contos populares em Portugal 42 min
  129. 129 O rey Leir 2 min
  130. 130 A dama Pé de Cabra 5 min
  131. 131 A morte sem merecimento 2 min
  132. 132 A linhagem dos Marinhos 2 min
  133. 133 Exemplo do Philosopho 3 min
  134. 134 Exemplo dos trez amigos 3 min
  135. 135 Exemplo allegorico da Redempção 3 min
  136. 136 A justiça de Trajano 2 min
  137. 137 A morte dos Avarentos 2 min
  138. 138 As miserias da riqueza 3 min
  139. 139 O que Deus faz é por melhor 3 min
  140. 140 Um homem de taverna 2 min
  141. 141 Os quatro ribaldos 3 min
  142. 142 A boa andança d'este mundo 5 min
  143. 143 Os dous caminhos 2 min
  144. 144 A papisa Joanna 3 min
  145. 145 O firmal de prata 1 min
  146. 146 Os quatro ladrões 2 min
  147. 147 O cavalleiro e o pacto com o diabo 5 min
  148. 148 O diabo escudeiro 3 min
  149. 149 As maas artes das molheres 4 min
  150. 150 O rey e os cortezãos 3 min
  151. 151 As vistiduras honradas 1 min
  152. 152 Rosimunda 4 min
  153. 153 A bilha de azeite 6 min
  154. 154 O ermitão e o ladrão 2 min
  155. 155 D'aquellas sete ao dia 4 min
  156. 156 A donzella recatada 5 min
  157. 157 O odio endurecido 4 min
  158. 158 Minha mãe, calçotes 1 min
  159. 159 O real bem ganhado 7 min
  160. 160 O segredo revelado 8 min
  161. 161 A prova das laranjas 4 min
  162. 162 Os dois irmãos 14 min
  163. 163 Dom Simão 6 min
  164. 164 Os tres conselhos 12 min
  165. 165 Quanto vale a boa sogra 7 min
  166. 166 O que Deus faz é pelo melhor 4 min
  167. 167 A rainha virtuosa e as duas irmãs 13 min
  168. 168 Quem tudo quer, tudo perde 6 min
  169. 169 O falso principe e o verdadeiro 18 min
  170. 170 Constancia de Grizelia 14 min
  171. 171 O barbeiro do rei 5 min
  172. 172 O achado da bolsa 5 min
  173. 173 O capão tornado sapo 2 min
  174. 174 Os poderes do ouro 5 min
  175. 175 O thesouro escondido 1 min
  176. 176 Erramos (E Ramos? 1 min
  177. 177 O pagem da rainha 5 min
  178. 178 A ingratidão dos filhos 6 min
  179. 179 A usura de Nossa Senhora 1 min
  180. 180 O medico de boa fé 1 min
  181. 181 Não escapa de ladrão 1 min
  182. 182 A venda das gallinhas 1 min
  183. 183 O roubo do vestuario 1 min
  184. 184 A roupa dos mendigos 1 min
  185. 185 A casa dos mortos 1 min
  186. 186 As botas fiadas 1 min
  187. 187 A matrona de Epheso 1 min
  188. 188 Tejo, Douro e Guadiana 1 min
  189. 189 Lenda da Lua e da Agua 1 min
  190. 190 Lenda do Milho e do Centeio 1 min
  191. 191 Lenda das manchas da Lua 2 min
  192. 192 Lenda de Fevereiro 1 min
  193. 193 Lenda da Serpente, do Sapo e do Sardão 1 min
  194. 194 Porque os cães se cheiram 1 min
  195. 195 Lendas dos animaes 1 min
  196. 196 A prova dos lobos 1 min
  197. 197 A obra de S. Pedro 1 min
  198. 198 O canto do gallo 1 min
  199. 199 Lenda da codorniz 1 min
  200. 200 Nossa Senhora e a solha 1 min
  201. 201 Lenda do manto de Nossa Senhora 1 min
  202. 202 Lenda dos tremoços 1 min
  203. 203 Lenda de Nossa Senhora 1 min
  204. 204 A submersão das cidades 1 min
  205. 205 A lenda dos ferreiros 1 min
  206. 206 Lenda da ponte de Domingos Terne 1 min
  207. 207 Lenda da amendoeira 1 min
  208. 208 A ponte da Misarella 1 min
  209. 209 Lenda de Simancas 1 min
  210. 210 Lenda de Lamego 1 min
  211. 211 Origem do nome de Lisboa 1 min
  212. 212 A sepultura dos dois irmãos 2 min
  213. 213 Fabula da raposa e do mocho 1 min
  214. 214 A aguia e a coruja 1 min
  215. 215 A raposa e o lobo 2 min
  216. 216 A raposa no gallinheiro 1 min
  217. 217 A raposa e o gallo 1 min
  218. 218 O lobo e a ovelha 1 min
  219. 219 Notas comparativas · Part 1 1 hr 2 min
  220. 220 Notas comparativas · Part 2 54 min