Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
As trez maçãsinhas de ouro
Havia trez irmãos; o mais novo tinha trez maçãsinhas de ouro, e os outros para vêr se lh’as tiravam mataram-n’o e enterram-n’o n’um monte. Depois nasceu na sepultura uma canna. Certo dia passou por lá um pastor, que cortou um pedaço da canna para fazer uma frauta. O pastor começou a tocar, mas a gaita em vez de tocar, dizia: Toca, toca, oh pastor, Os meus irmãos me mataram, Por trez maçãsinhas de ouro, E ao cabo não as levaram. O pastor quando ouviu isto, chamou um carvoeiro, e deu-lhe a frauta.
O carvoeiro começou tambem a tocar, mas a frauta dizia: Toca, toca, oh carvoeiro, Os meus irmãos me mataram… Assim foi a frauta andando, de individuo para individuo, até que chegou ás mãos do pae e mãe do morto. A frauta dizia ainda: Toca, toca, oh meu pae… Toca, toca, oh minha mãe, Os meus irmãos me mataram Por trez maçãsinhas de ouro E ao cabo não nas levaram. Chamaram o pastor, que disse onde tinha cortado a canna. Foram lá e encontraram o cadaver com as trez maçãsinhas de ouro.
(Rebordainhos, Bragança.) Notas 54. As trez maçãsinhas de ouro., Gubernatis, (Myth. zoolog., t. II, p. 342) cita o conto n.º XXII do seu Novellino de Santo Stephano de Calcinaia, no qual: «dois irmãos mais velhos roubam uma penna de pavão ao seu irmão mais moço e o matam (isto é o pavão, da mesma fórma que n'um conto russo, a irmã mata o irmão mais moço o para lhe tirar as botinas vermelhas). No logar em que o irmão da penna de pavão é morto e enterrado, cresce uma arvore, de que se faz um cajado, depois um assobio, que, quando toca, conta o caso funebre da morte do irmãosinho morto por causa da pluma de pavão.»
Eis com o o illustre mythographo explica o conto: «Quando o céo luminoso ou quando o sol está occulto pelas nuvens, quando as pennas brilhantes são arrancadas, quando o pavão está enterrado, a arvore que está plantada sobre a sua sepultura (a nuvem) faz ouvir a sua voz na volta da primavera… a arvore torna-se uma cana, uma flauta magica, um kokila melodioso.» Acha-se este conto na vasta collecção russa de Afanasieff, liv. V, n.º 17; e liv. VI, n.º 25.
Alem da fórma italiana citada, Vittorio Imbriani colligiu uma outra sob o titulo de Passo griffo, nos seus Contos de Pomigliano. (Rev. des Deux Mondes, Nov. de 1877, p. 145.) Este mesmo conto foi colligido por Bladé, em gascon, com o titulo Lu Flauto, nos Contes et proverbes populaires rec. em Armagnac; já apparece n'este a laranja, ou o pômo de ouro. Por elle se vê quanto o conto portuguez já se acha deturpado. Ha uma outra versão allemã, O osso que canta, citado por Bladé, na Hausmaerchen; X. Marmier, nos Chants populaires du Nord, p. 75, traz uma ballada parecida com este conto, na revelação do fratricidio por uma canção.
Husson, na sua obra La Chaine traditionelle, interpreta o sentido mythico por esta forma : «como uma transformação de um antigo mytho relativo aos phenomenos da luz. Estes dois irmãos, correspondem aos Dioscuros e aos Açvins, isto é, aos Genios da luz no seu nascimento e occaso.» (p. 59.) Gubernatis, na Mythologie des Plantes, t. II, p. 129, traz um conto hungaro, em que uma irmã mais nova é morta pelas duas mais velhas, e uma flauta é que revela o crime.
Segundo a sua interpretação mythica as duas irmãs são as duas metades da noite. O poder da flauta apparece no conto da Çakuntala, no de Polydoro, e em um conto toscano; no Rig-Veda (X, 135) Yama toca uma flauta, á sombra da arvore que canta, com que acorda todos os antepassados mortos. (Gub., ib., t. I, p. 94). A nossa versão foi colligida pelo sr. Leite de Vasconcellos, e publicada na Vanguarda, n.º 39, em 1881; ha outra versão nos Contos populares portuguezes, n.º XL.
Vide Stanislao Prato, Quatro Novelline livornesi, p. 57, onde discute este thema nos mythos hellenicos, na Eneida e Divina Comedia. Ha uma versão de Sevilha, intitulada La Flor de Lililá, publicada na Biblioteca de las Tradiciones populares españolas, t. I, p. 196.
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Vesper stopped here. Sleep well.