Contos Tradicionaes do Povo Portuguez O rei de Napoles

Contos Tradicionaes do Povo Portuguez

Teófilo Braga

O rei de Napoles

Chapter 45 of 219 8 min aloud CC BY-SA 4.0

Um rei tinha um filho, e como era o unico, queria que elle casasse; mas o principe respondia-lhe sempre, que não casaria senão com uma filha do rei de Napoles se elle tivesse alguma. O principe tratou logo de indagar bem se o rei de Napoles tinha alguma filha; mas não achava pessoa que lhe désse a certeza. Depois de muitas indagações partiu para Napoles, e armou-se a deitar um decreto, dizendo que dava esmolas a todos os velhos que quizessem lá ir.

Era para vêr se algum lhe dava noticias se o rei tinha alguma filha. Todos com quem elle fallava lhe diziam que tinham sido nados e criados e que tal cousa nunca tinham ouvido. Indo um dia á esmola a casa do principe uma velha, perguntou-lhe se ella sabia do rei ter alguma filha? Respondeu a velha:, Oh senhor, eu aqui nasci, e d’aqui sou, mas nunca ouvi d’elle ter nenhuma filha. Agora, passando eu o outro dia por uma esquina do palacio, vi de dentro de uma fresta uma cara tão linda, que me pareceu ser de princeza.

Mas não posso dar mais certeza. O principe prometteu á velha de lhe pagar bem, se ella descobrisse se era a princeza. Um dia indo a velha pela esquina, viu á fresta a tal cara linda e chamou-a para lhe vir fallar. Ella veiu; perguntou-lhe a velha se queria comprar joias, que sabia quem as tinha bem boas. A princeza disse que sim, e combinou a hora em que iriam ter á fresta. A velha foi muito contente dizer tudo ao principe, que tinha visto a princeza, que tinha fallado com ella, e combinado a hora d’elle ir com as joias.

O principe vestiu-se em trajo de adello, e chegou á esquina a apregoar joias. N’este tempo ouve uma voz, que vinha da fresta, chamar:, Oh homem das joias! O principe voltou para traz mui contente, e a princeza disse-lhe que entrasse por aquella escadinha. Assim fez; mostrou-lhe as joias, ella estava satisfeita, e disse depois de escolher:, Vamos agora ao preço., Se a senhora está contente com essas, em casa tenho outras ainda melhores, e trago-as cá ámanhã.

Quando chegou a casa a velha aconselhou-o a que vestisse por baixo os seus fatos de principe, e por cima com o trajo de vendilhão das joias, para quando chegasse ás escadinhas despir-se e fallar á princeza como quem era. Assim fez; a princeza quando o viu feito principe assustou-se, mas elle expôz-lhe a sua pratica e a diligencia que tinha feito para chegar áquelle lugar, e que o seu sentido era de casar com ella. A princeza acceitou o pedido, e assentou a hora da noite muito em segredo em que elle a iria buscar, porque o rei seu pae não queria que ella casasse.

O principe pelo muito grande desejo que tinha de a ir buscar, foi logo de serão para o logar da escadinha; mas cançado de esperar, encostou o cotovello sobre a sella do cavallo e pegou a dormir. N’este tempo passou um homem de meia tigella pelo pé do principe, e quiz vêr se o conhecia; n’isto ouviu uma voz que dizia:, Vamos, vamos, que já está o escaler n’agua á nossa espera. O tal homem viu descer uma donzella muito linda, e pegou n’ella com toda a riqueza que trazia; metteram-se no escaler e partiram.

O pobre do principe ficou ali até amanhecer. Quando acordou julgou que a princeza o tinha enganado, e foi para outra terra, e quando lá chegou começou outra vez a dar esmolas aos pobres, para descobrir por algum se o rei de Napoles tinha alguma filha. A princeza, quando amanheceu, que se viu com aquelle homem, disse comsigo:, A primeira vista não é vista; mas isto não é o principe meu senhor. O ladrão do homem como a via desgostosa perguntou-lhe:, Sabe a menina com quem vae?, Com o principe meu senhor., Pois saiba que vae com um ladrão.

A princeza começou a chorar, e foram andando, andando e chegaram lá a uma terra chamada das Junqueiras. Elle varou a lancha, deixou ficar ali a princeza e foi-se embora; havia ali só uma mulher viuva com a sua filha. A princeza ficou a chorar muito n’aquelle escampado, por se vêr sósinha, e tudo isto era de noite. Disse a filha á mãe:, Estou ouvindo chorar, e parece-me ser mulher., Não, filha; isso podem ser os ladrões, para nos enganarem e virem roubar-nos.

Tornou a dizer a filha : Será o que Deus quizer; Mas aquelle chorar é de mulher. Foram ambas, e deram com a princeza, que ellas não conheciam, e tomaram-na para a sua companhia. O principe continuava a dar esmolas aos pobres, e perguntava a todos se o rei de Napoles tinha alguma filha. Todos diziam que não, que nunca o tinham ouvido. Afinal foi lá um velho e fez-lhe esmola, e repetiu a pergunta do costume; o velho respondeu:, Se o senhor soubesse o que eu passei com ella!

sempre se havia de rir um bocado. O principe pucha uma cadeira e senta o velho ao pé de si. O velho contou:, Eu vinha um dia do jogo das tábolas, e passei pelo palacio do rei; estava lá n’uma esquina um cavalleiro dormindo, por signal com um cotovello na sella do cavallo; fui ao pé d’elle para vêr se o conhecia, e a este tempo ouvi dizer: «Vamos, vamos, que já está o escaler na agua á nossa espera.» E foi contando timtim por timtim o caso do roubo da princeza até a ir deitar na terra das Junqueiras.

Assim que chegou a este ponto, o principe não se teve em si, pucha de um punhal e crava-o na cabeça do velho e matou-o. Os outros velhos que estavam ali, gritaram logo:, Aqui d’el-rei, que mataram o nosso irmão. Acudiu logo a justiça para levarem o principe para o Limoeiro; chegou o dia em que ia a enforcar, e elle pediu mais uma hora de vida. Chamou um dos homens que ali estava, que fosse ao palacio pedir ao rei um livro de pastas vermelhas, que estava á cabeceira do principe.

O rei assim que ouviu isto deu-lhe um baque o coração, e conheceu que só o principe é que podia fazer aquelle pedido. E como já ha muitos annos andava ausente do reino, foi vêr se seria elle; metteu-se na carruagem e foi ter com elle, e trouxe logo para o palacio o filho, que lhe contou todos os seus trabalhos:, Agora, meu pae, dê-me licença para ir á terra das Junqueiras buscar a princeza. O pae mandou apromptar uma das melhores náos, e o principe assim que chegou á terra das Junqueiras viu uma casinha, e bateu, e quem lhe veiu fallar foi a dona.

As perguntas do principe, disse que morava ali com duas filhas. O principe disse se ella dava licença, que as queria vêr. E ella, que não, que não tinham roupinha capaz de apparecerem a sua alteza. Tanto teimou que ellas appareceram, e o principe logo a conheceu, e disse que ia ali por causa d’ella, para a levar para o palacio. A princeza disse que estava bem, e que para enganos só bastava uma vez. Elle disse que levaria tambem para o palacio as suas companheiras, que seriam tratadas como pessoas reaes.

Foram-se embora e casaram, e ficaram vivendo todos como Deus com os anjos. (Ilha de S. Miguel, Açores.) Notas 43. O rei de Napoles., Nas Nuits facetiennes, de Straparola (ed. elz.), IX, fab. 1.ª, vem este conto com a mesma situação das joias e da donzella escondida pelo pae.

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Contents

Contos Tradicionaes do Povo Portuguez

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  1. 01 Advertencia Preliminar 15 min
  2. 02 Da Novellistica Popular 1 hr 3 min
  3. 03 A cara de boi 10 min
  4. 04 O velho Querecas 8 min
  5. 05 O surrão 5 min
  6. 06 A saia de esquilhas 7 min
  7. 07 As trez fadas 5 min
  8. 08 A filha do rei mouro 7 min
  9. 09 As fiandeiras 5 min
  10. 10 Cravo, rosa e jasmim 9 min
  11. 11 O magico 5 min
  12. 12 O mestre das artes 6 min
  13. 13 O aprendiz do Mago 5 min
  14. 14 A bixa de sete cabeças 7 min
  15. 15 O conde-soldadinho 3 min
  16. 16 A sardinhinha 6 min
  17. 17 Maria da Silva 5 min
  18. 18 A rosa branca na bocca 3 min
  19. 19 O cavallinho das sete côres 4 min
  20. 20 A muda mudella 4 min
  21. 21 O sapatinho de setim 7 min
  22. 22 A madrasta 4 min
  23. 23 O ovo e o brilhante 3 min
  24. 24 Cabellos de ouro 4 min
  25. 25 A carpinteirasinha 3 min
  26. 26 A filha do lavrador 4 min
  27. 27 A feia que fica bonita 4 min
  28. 28 O peixinho encantado 4 min
  29. 29 O figuinho da figueira 2 min
  30. 30 A da varanda 5 min
  31. 31 A noiva formosa 3 min
  32. 32 A noiva do corvo 4 min
  33. 33 A paraboinha de ouro 4 min
  34. 34 O principe que foi correr sua ventura 11 min
  35. 35 Maria Subtil 8 min
  36. 36 O coelho branco 3 min
  37. 37 Clarinha 4 min
  38. 38 Bola-Bola 2 min
  39. 39 Linda Branca 4 min
  40. 40 O Rei-Escuta 1 min
  41. 41 As cunhadas do rei 14 min
  42. 42 Os sete encantados 3 min
  43. 43 As sonsas 4 min
  44. 44 A mão do finado 14 min
  45. 45 O rei de Napoles 8 min
  46. 46 O matador dos bichos 5 min
  47. 47 As nozes 4 min
  48. 48 As trez cidras do amor 6 min
  49. 49 A bengala de dezeseis quintaes 18 min
  50. 50 A torre de Babylonia 5 min
  51. 51 Desanda cacheira 8 min
  52. 52 O sal e a agua 4 min
  53. 53 As crianças abandonadas 4 min
  54. 54 O afilhado de Santo Antonio 3 min
  55. 55 A filha do diabo 4 min
  56. 56 As trez maçãsinhas de ouro 5 min
  57. 57 O sargento que foi ao inferno 8 min
  58. 58 A princeza que adivinha 7 min
  59. 59 A adivinha do rei 3 min
  60. 60 O boi Cardil 5 min
  61. 61 O camareiro do rei 7 min
  62. 62 O Palmeiriz d'Oliva 5 min
  63. 63 O bolo refolhado 2 min
  64. 64 A mirra 3 min
  65. 65 A mulher curiosa 2 min
  66. 66 As favas 2 min
  67. 67 A velha das gallinhas 2 min
  68. 68 A Riqueza e a Fortuna 4 min
  69. 69 Março Marçagão 2 min
  70. 70 Alegria da viuva 3 min
  71. 71 A carpideira e a viuva 1 min
  72. 72 Frei João sem cuidados 3 min
  73. 73 João Ratão (ou Grillo 3 min
  74. 74 Os trez irmãos 4 min
  75. 75 As barras de ouro 3 min
  76. 76 Pedro de Malas-Artes 7 min
  77. 77 Santa Helena 3 min
  78. 78 O guardador de porcos 3 min
  79. 79 Nascer para ser rico 5 min
  80. 80 Dom Caio 3 min
  81. 81 Os dez anõesinhos da tia Verde-Agua 3 min
  82. 82 O compadre diabo 5 min
  83. 83 Os corcundas 2 min
  84. 84 A mulher gulosa 2 min
  85. 85 As irmãs gagas 1 min
  86. 86 O tinhoso, o ranhoso e o sarnoso 1 min
  87. 87 Dá-me o meu meio tostão 3 min
  88. 88 O soldado que foi para o céo 4 min
  89. 89 O thesouro do enforcado 3 min
  90. 90 Os peixes do guardião 1 min
  91. 91 A cobra e o cordão do frade 1 min
  92. 92 O caldo de pedra 2 min
  93. 93 A enfiada de petas 3 min
  94. 94 Sempre não 3 min
  95. 95 Manoel Feijão 4 min
  96. 96 Cahiu-me na minha catulinha 2 min
  97. 97 Casar e descasar 3 min
  98. 98 O cego e o moço 1 min
  99. 99 O cego e o mealheiro 2 min
  100. 100 O avarento 2 min
  101. 101 Os trez conselhos 4 min
  102. 102 O sacco das nozes 2 min
  103. 103 O sapateiro pobre 2 min
  104. 104 O signal da Nobreza 1 min
  105. 105 A estatua que come 2 min
  106. 106 As adivinhas em anexins 2 min
  107. 107 A mulher teimosa 1 min
  108. 108 O jogo do Pira 1 min
  109. 109 O caso do tio Jorge Coutinho 3 min
  110. 110 Os dois irmãos e a mulher morta 8 min
  111. 111 Os trez patrões 1 min
  112. 112 Para quem canta o cuco? 1 min
  113. 113 Tudo andaremos 1 min
  114. 114 A mulher que cegou o marido 1 min
  115. 115 O tolo e as moscas 1 min
  116. 116 Já que tanto teima 1 min
  117. 117 Tic-taco 2 min
  118. 118 As orelhas do abbade 1 min
  119. 119 Os duzentos carneiros 1 min
  120. 120 Lenda do Paraiso 1 min
  121. 121 Lenda da mãe de Sam Pedro 2 min
  122. 122 A tunica de Christo 1 min
  123. 123 O principe mendigo 1 min
  124. 124 O lavrador e o ermitão 1 min
  125. 125 O thesouro enterrado 1 min
  126. 126 As vozes dos animaes 2 min
  127. 127 Os ditados novellescos 4 min
  128. 128 Litteratura dos Contos populares em Portugal 42 min
  129. 129 O rey Leir 2 min
  130. 130 A dama Pé de Cabra 5 min
  131. 131 A morte sem merecimento 2 min
  132. 132 A linhagem dos Marinhos 2 min
  133. 133 Exemplo do Philosopho 3 min
  134. 134 Exemplo dos trez amigos 3 min
  135. 135 Exemplo allegorico da Redempção 3 min
  136. 136 A justiça de Trajano 2 min
  137. 137 A morte dos Avarentos 2 min
  138. 138 As miserias da riqueza 3 min
  139. 139 O que Deus faz é por melhor 3 min
  140. 140 Um homem de taverna 2 min
  141. 141 Os quatro ribaldos 3 min
  142. 142 A boa andança d'este mundo 5 min
  143. 143 Os dous caminhos 2 min
  144. 144 A papisa Joanna 3 min
  145. 145 O firmal de prata 1 min
  146. 146 Os quatro ladrões 2 min
  147. 147 O cavalleiro e o pacto com o diabo 5 min
  148. 148 O diabo escudeiro 3 min
  149. 149 As maas artes das molheres 4 min
  150. 150 O rey e os cortezãos 3 min
  151. 151 As vistiduras honradas 1 min
  152. 152 Rosimunda 4 min
  153. 153 A bilha de azeite 6 min
  154. 154 O ermitão e o ladrão 2 min
  155. 155 D'aquellas sete ao dia 4 min
  156. 156 A donzella recatada 5 min
  157. 157 O odio endurecido 4 min
  158. 158 Minha mãe, calçotes 1 min
  159. 159 O real bem ganhado 7 min
  160. 160 O segredo revelado 8 min
  161. 161 A prova das laranjas 4 min
  162. 162 Os dois irmãos 14 min
  163. 163 Dom Simão 6 min
  164. 164 Os tres conselhos 12 min
  165. 165 Quanto vale a boa sogra 7 min
  166. 166 O que Deus faz é pelo melhor 4 min
  167. 167 A rainha virtuosa e as duas irmãs 13 min
  168. 168 Quem tudo quer, tudo perde 6 min
  169. 169 O falso principe e o verdadeiro 18 min
  170. 170 Constancia de Grizelia 14 min
  171. 171 O barbeiro do rei 5 min
  172. 172 O achado da bolsa 5 min
  173. 173 O capão tornado sapo 2 min
  174. 174 Os poderes do ouro 5 min
  175. 175 O thesouro escondido 1 min
  176. 176 Erramos (E Ramos? 1 min
  177. 177 O pagem da rainha 5 min
  178. 178 A ingratidão dos filhos 6 min
  179. 179 A usura de Nossa Senhora 1 min
  180. 180 O medico de boa fé 1 min
  181. 181 Não escapa de ladrão 1 min
  182. 182 A venda das gallinhas 1 min
  183. 183 O roubo do vestuario 1 min
  184. 184 A roupa dos mendigos 1 min
  185. 185 A casa dos mortos 1 min
  186. 186 As botas fiadas 1 min
  187. 187 A matrona de Epheso 1 min
  188. 188 Tejo, Douro e Guadiana 1 min
  189. 189 Lenda da Lua e da Agua 1 min
  190. 190 Lenda do Milho e do Centeio 1 min
  191. 191 Lenda das manchas da Lua 2 min
  192. 192 Lenda de Fevereiro 1 min
  193. 193 Lenda da Serpente, do Sapo e do Sardão 1 min
  194. 194 Porque os cães se cheiram 1 min
  195. 195 Lendas dos animaes 1 min
  196. 196 A prova dos lobos 1 min
  197. 197 A obra de S. Pedro 1 min
  198. 198 O canto do gallo 1 min
  199. 199 Lenda da codorniz 1 min
  200. 200 Nossa Senhora e a solha 1 min
  201. 201 Lenda do manto de Nossa Senhora 1 min
  202. 202 Lenda dos tremoços 1 min
  203. 203 Lenda de Nossa Senhora 1 min
  204. 204 A submersão das cidades 1 min
  205. 205 A lenda dos ferreiros 1 min
  206. 206 Lenda da ponte de Domingos Terne 1 min
  207. 207 Lenda da amendoeira 1 min
  208. 208 A ponte da Misarella 1 min
  209. 209 Lenda de Simancas 1 min
  210. 210 Lenda de Lamego 1 min
  211. 211 Origem do nome de Lisboa 1 min
  212. 212 A sepultura dos dois irmãos 2 min
  213. 213 Fabula da raposa e do mocho 1 min
  214. 214 A aguia e a coruja 1 min
  215. 215 A raposa e o lobo 2 min
  216. 216 A raposa no gallinheiro 1 min
  217. 217 A raposa e o gallo 1 min
  218. 218 O lobo e a ovelha 1 min
  219. 219 Notas comparativas · Part 1 1 hr 2 min
  220. 220 Notas comparativas · Part 2 54 min