Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
Linda Branca
Havia um homem muito rico, que era viuvo e tinha uma filha muito formosa chamada Linda Branca; tinha ella muita pena de ser tão bonita, porque todos a queriam. Pediu ao pae que lhe désse um vestido azul e cinzento; o pae deu-lh’o. Depois pediu lhe désse um vestido azul e prateado. Teve logo o vestido. Tornou a pedir outro azul e doirado; o pae fez-lhe a vontade. Tinha Linda Branca uma vara de condão, e ella pediu-lhe que a fizesse feia n’aquelle mesmo instante.
Ella vestiu uma peliça e uma mascara muito feia, e foi d’ali para fóra servir de criada. Chegou a um palacio aonde n’aquelle tempo morava um rei, que era solteiro, e ficou por criada. Os moradores da cidade juntaram-se para fazerem uma grande festa que durava trez dias. Linda Branca pediu á rainha licença para ir áquellas festas. A rainha disse:, Pede ao rei meu filho, que elle só governa. Ella foi pedir licença ao rei quando estava calçando as botas.
Elle lhe disse:, Olha que te atiro com esta bota. Depois que o rei foi para a festa, Linda Branca disse:, Minha vara do condão, põe-me prompto um carro e preparos para ir á festa. Vestiu-se de azul e cinzento e foi. Acabou-se a festa e ella tratou de fugir. O rei e os outros senhores seguiram atraz d’ella, e só o rei lhe apertou a mão, e perguntou:, De que terra é?, Sou da terra da bota. E fugiu. Chegando o rei a casa, ella estava como de costume.
No seguinte dia foi outra vez pedir licença ao rei, que lhe disse:, Olha que te dou com esta verdasca. Linda Branca foi outra vez de azul e prateado. Chegando lá, todos gostaram muito mais de a vêr. No fim da festa o rei chegou ao pé d’ella e disse:, A senhora d’onde é?, Sou da terra da verdasca. Chegou-se ao ultimo dia, ella foi pedir licença para ir á festa. O rei tinha a toalha na mão, e respondeu:, Olha que te dou com a toalha. Linda Branca foi d’esta vez de azul e doirado.
Ao sahir, o rei lhe apertou a mão e lhe perguntou:, De que terra é?, Sou da terra da toalha. Não comprehendeu o rei isto, e ficou doente de pena de não saber d’onde era aquella formosura. Chegou a ponto que quiz que os seus amigos viessem passeiar á roda do palacio. Linda Branca, que sabia da doença do rei, vestiu-se com o primeiro vestido com que tinha apparecido e chegou a uma janella. Um amigo do rei viu-a:, Oh que linda cara vi n’uma janella do palacio!
O rei olhou, mas não viu nada, e seguiu a toda a pressa para o palacio, chegou ao lado da rainha sua mãe, e disse:, Quem está cá de fóra?, Ninguem, senão a gente do costume. Segundo dia, elle com os olhos a espreitar, mas descuidado, ella chegou com o segundo vestido e só os amigos do rei a viram. Correndo á maior pressa ao palacio , a rainha mãe disse-lhe o mesmo que no dia antecedente. Terceiro dia, o rei espreitou e então viu a mesma senhora da vespera, com o vestido azul e enramado de oiro.
Correndo com grande pressa apanhou Linda Branca com uma pequena borda do vestido dourado de fóra e diz:, Eu te ordeno que dispas este fato. Ella obedeceu, e então o rei pôde vêr a senhora de que tanto gostava no dia da festa. Linda Branca contou o motivo de tudo aquillo, e trez dias duraram as festas do casamento. Quem o disse está aqui Quem o quer saber vá lá, Sapatinhos de manteiga Escorregam mas não cahem. (Ilha de S. Miguel, Açores.) Notas 37.
Linda branca., Pertence ao cyclo do Sapatinho de vidro. Vid. n.º 19.
End of chapter
Vesper stopped here. Sleep well.