Contos Tradicionaes do Povo Portuguez Maria Subtil

Contos Tradicionaes do Povo Portuguez

Teófilo Braga

Maria Subtil

Chapter 35 of 219 8 min aloud CC BY-SA 4.0

Havia um mercador, que morava perto do palacio real, e tinha trez filhas. Maria era a mais moça e a mais formosa. O mercador era viuvo, e o rei mandou-o fazer uma viagem. Logo que o rei o mandou chamar foi, e voltou muito triste para casa, por deixar as filhas sós; mas deu-lhes tres vasos de manjaricão, e disse:, Minhas queridas filhas! eu parto por ordem do rei, e deixo um vaso a cada uma; os vasos hãode-me dizer o que fôr succedido., Nada hade succeder!

disseram as filhas. Partiu o pae, e o rei no dia seguinte foi com dois amigos visitar as meninas de sentimento pela partida do pae; estavam as tres irmãs ceando, quando sentiram bater á porta. A mais velha não se importando com os reparos de Maria abriu a porta ao rei. Maria ficou tambem zangada por a irmã do meio os mandar sentar á meza, e disse:, Vamos buscar uma gotta de vinho á adega; eu levo a chave, minha mana mais velha a luz, e a do meio o cangirão.

Disse o rei:, Não vão, que nós não queremos vinho. As duas irmãs mais velhas tambem lhe responderam:, Nós não podemos ir. Maria lhes tornou:, Não querem ir, pois irei eu. E foi-se. Chegou ao saguão, apagou a luz, e pôz a chave e o cangirão na escada, e foi ter a casa de uma visinha e bateu á porta. Ella veiu e perguntou:, Quem está ahi a estas horas?, Deixe-me entrar, que eu briguei com minha irmã mais velha, e para ella não brigar mais commigo, vim para cá dormir.

E lá dormiu aquella noite. Ficou o rei muito zangado da falsidade de Maria. Foi ella para casa no outro dia, e viu os vasos das irmãs murchos e ficou muito contente de ter o seu viçoso. Como o quarto da irmã mais velha dava para as quintas do rei, as duas irmãs desejaram de lá umas nespras. Maria desceu por uma corda; apanhou-as e tornou a subir para casa. A mais velha desejou limas; Maria foi e encontrou-se com o vinhateiro, que lhe disse:, Que faz você por aqui, senhora marota?

E ella foi a elle e puchou-lhe pelas pernas, dizendo:, Ainda me estás reprehendendo! Espera ahi. E elle morreu afogado n’um espinho de limeira. Maria atrepou pela corda, e chegou a casa muito aborrecida e disse:, Olhem as meninas que esta é a ultima vez. No dia seguinte a irmã do meio desejou bananas, e tanto pediu, que Maria foi lá, onde se encontrou com o rei, que lhe disse:, Sempre cá vieste, Subtil? tu agora o pagarás. E começou a perguntar-lhe tudo; Maria nada negou, até que o rei lhe disse:, Vem atraz de mim, que em casa tu as pagarás.

E cuidando que Maria vinha, foi andando; olhando de repente não viu nada, nem Maria, nem corda, nem por onde ella tinha saido. O rei ficou tão zangado, que adoeceu de paixão. As duas irmãs mais velhas casaram com dois amigos do rei e tiveram dois meninos. Maria pegou n’elles e metteu-os n’um açafate muito rico e enfeitou-o de flores muito finas de maneira que ninguem dizia levar duas crianças. Maria vestiu-se de rapaz e pôz o açafate á cabeça, e quando passou por casa do rei, apregoôu assim:

Quem leva estas flores Ao rei, que tem mal de amores? O rei que estava de cama mandou comprar o açafate; ella levou o cestinho, e quando chegou lá disse:, Ai, que me esqueceu o outro! E foi-se, deixando o cesto ao rei; elle ouviu guinchos dentro do cestinho, vae vêr, acha-se com duas crianças. Ficou muito raivoso, e prometteu vingar-se. Chegou o mercador, pae das meninas, e o rei mandou-lhe dizer por um pagem, que lhe fizesse uma casaca de pedra.

O mercador chegou a casa muito triste, porque não podia fazer uma casaca de pedra, e porque as duas filhas mais velhas estavam casadas e porque dois vasos estavam murchos. Quando ellas lhe perguntavam o que tinha, Maria saiu de traz das irmãs e disse:, Se o rei lhe manda fazer uma casaca de pedra não se apoquente, meu pae; leve lá este giz para elle fazer as linhas. Assim fez; o rei respondeu que era impossivel, e o mercador respondeu tambem:, Em vista d’isso é-me impossivel fazer a casaca., Pois então hasde-me entregar a tua filha Maria.

O mercador voltou ainda mais triste para casa:, Minha querida filha, o rei quer que te vá levar ao palacio. É a nossa desgraça., Não se afflija, meu pae; mande fazer uma boneca egual a mim com um cordão para se puxar pela cabeça para dizer sim e não; e a boneca terá muito mel pelo pescoço. O rei disse aos pagens:, Quando vier aqui um senhor com uma menina, em dizendo que querem fallar commigo, mettam a ella na minha camara, e deixem-no a elle ir-se embora.

Maria Subtil entrou e metteu-se debaixo da cama, com o cordão na mão, e pôz a boneca deitada. Quando entrou o rei, olhou para a boneca e disse:, Senhora Maria Subtil, passe muito bem. Maria puchou pelo cordão á boneca, e ella abaixou a cabeça. O rei lhe disse:, Vamos ajustar contas. E começou pelo principio, desde quando foi á adega até chegar ao açafate de flôres. E Maria Subtil sempre a puchar pelo cordão. O rei continuou:, Quem me fez tanta falsidade merece a morte.

Pegou n’um espadim e degollou a boneca; o mel respingou, e foi-lhe tocar n’um beiço; e elle disse:, Ai Maria Subtil! tão dôce na morte e tão amarga na vida. Quem tamanho crime fez merece já morrer. E ia para se matar, quando Maria Subtil, a verdadeira, sahiu de baixo da cama e se abraçou com elle. No dia seguinte casaram, e foram depois muito felizes. (Ilha de S. Miguel, Açores.) Notas 33. Maria Subtil., Na versão do Algarve encontrámos este conto com o titulo de Dona Vintes; e na versão de Ourilhe (Celorico de Basto) vem com o de Esvintola, (Contos populares portuguezes, n.º XLII) trazendo o estribilho:

Ai Dona Esvintola, Tão brava na vida E tão dôce na morte. Nos Contos populares portuguezes, de Sylvio Romero, n.º XII, Dona Pinta é uma variante do nosso. Ha uma versão sevilhana, intitulada Mariquilla la ministra, colligida por Guichot y Sierra. Vid. n.º 42. A referencia mais antiga a este conto vem nas Cartas, de D. Francisco Manoel de Mello (Centuria V, carta 7.ª): «Eu cuido que vireis a ser aquella …Dona atrevida, Dôce na morte E agra na vida.

que nos contam quando pequenos.» Na tradição popular corrente ainda tem o titulo de Maria Subida. Charles Perrault, nos seus Contos (1697), redigiu litterariamente este thema tradicional na Adroite Princesse ou Aventures de Finette, no qual o principe de Bel-à-Voir fura com a espada uma boneca de palha que tem uma bexiga cheia de sangue. João Baptista Basile, no Pentamerone, deu redacção litteraria á fórma italiana no conto da Sapia Licciardia, que tambem mette na cama uma boneca cheia de mel e cousas dôces, exactamente como na tradição portugueza.

Na Inglaterra este conto apresenta um aspecto exclusivamente maravilhoso no The Made Pranks and merry Jests of Robin Good Fellow, em que o amante é um genio domestico, Robin, que deixa na cama uma figura de lã. (Brueyre, Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 235.)

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Contents

Contos Tradicionaes do Povo Portuguez

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  1. 01 Advertencia Preliminar 15 min
  2. 02 Da Novellistica Popular 1 hr 3 min
  3. 03 A cara de boi 10 min
  4. 04 O velho Querecas 8 min
  5. 05 O surrão 5 min
  6. 06 A saia de esquilhas 7 min
  7. 07 As trez fadas 5 min
  8. 08 A filha do rei mouro 7 min
  9. 09 As fiandeiras 5 min
  10. 10 Cravo, rosa e jasmim 9 min
  11. 11 O magico 5 min
  12. 12 O mestre das artes 6 min
  13. 13 O aprendiz do Mago 5 min
  14. 14 A bixa de sete cabeças 7 min
  15. 15 O conde-soldadinho 3 min
  16. 16 A sardinhinha 6 min
  17. 17 Maria da Silva 5 min
  18. 18 A rosa branca na bocca 3 min
  19. 19 O cavallinho das sete côres 4 min
  20. 20 A muda mudella 4 min
  21. 21 O sapatinho de setim 7 min
  22. 22 A madrasta 4 min
  23. 23 O ovo e o brilhante 3 min
  24. 24 Cabellos de ouro 4 min
  25. 25 A carpinteirasinha 3 min
  26. 26 A filha do lavrador 4 min
  27. 27 A feia que fica bonita 4 min
  28. 28 O peixinho encantado 4 min
  29. 29 O figuinho da figueira 2 min
  30. 30 A da varanda 5 min
  31. 31 A noiva formosa 3 min
  32. 32 A noiva do corvo 4 min
  33. 33 A paraboinha de ouro 4 min
  34. 34 O principe que foi correr sua ventura 11 min
  35. 35 Maria Subtil 8 min
  36. 36 O coelho branco 3 min
  37. 37 Clarinha 4 min
  38. 38 Bola-Bola 2 min
  39. 39 Linda Branca 4 min
  40. 40 O Rei-Escuta 1 min
  41. 41 As cunhadas do rei 14 min
  42. 42 Os sete encantados 3 min
  43. 43 As sonsas 4 min
  44. 44 A mão do finado 14 min
  45. 45 O rei de Napoles 8 min
  46. 46 O matador dos bichos 5 min
  47. 47 As nozes 4 min
  48. 48 As trez cidras do amor 6 min
  49. 49 A bengala de dezeseis quintaes 18 min
  50. 50 A torre de Babylonia 5 min
  51. 51 Desanda cacheira 8 min
  52. 52 O sal e a agua 4 min
  53. 53 As crianças abandonadas 4 min
  54. 54 O afilhado de Santo Antonio 3 min
  55. 55 A filha do diabo 4 min
  56. 56 As trez maçãsinhas de ouro 5 min
  57. 57 O sargento que foi ao inferno 8 min
  58. 58 A princeza que adivinha 7 min
  59. 59 A adivinha do rei 3 min
  60. 60 O boi Cardil 5 min
  61. 61 O camareiro do rei 7 min
  62. 62 O Palmeiriz d'Oliva 5 min
  63. 63 O bolo refolhado 2 min
  64. 64 A mirra 3 min
  65. 65 A mulher curiosa 2 min
  66. 66 As favas 2 min
  67. 67 A velha das gallinhas 2 min
  68. 68 A Riqueza e a Fortuna 4 min
  69. 69 Março Marçagão 2 min
  70. 70 Alegria da viuva 3 min
  71. 71 A carpideira e a viuva 1 min
  72. 72 Frei João sem cuidados 3 min
  73. 73 João Ratão (ou Grillo 3 min
  74. 74 Os trez irmãos 4 min
  75. 75 As barras de ouro 3 min
  76. 76 Pedro de Malas-Artes 7 min
  77. 77 Santa Helena 3 min
  78. 78 O guardador de porcos 3 min
  79. 79 Nascer para ser rico 5 min
  80. 80 Dom Caio 3 min
  81. 81 Os dez anõesinhos da tia Verde-Agua 3 min
  82. 82 O compadre diabo 5 min
  83. 83 Os corcundas 2 min
  84. 84 A mulher gulosa 2 min
  85. 85 As irmãs gagas 1 min
  86. 86 O tinhoso, o ranhoso e o sarnoso 1 min
  87. 87 Dá-me o meu meio tostão 3 min
  88. 88 O soldado que foi para o céo 4 min
  89. 89 O thesouro do enforcado 3 min
  90. 90 Os peixes do guardião 1 min
  91. 91 A cobra e o cordão do frade 1 min
  92. 92 O caldo de pedra 2 min
  93. 93 A enfiada de petas 3 min
  94. 94 Sempre não 3 min
  95. 95 Manoel Feijão 4 min
  96. 96 Cahiu-me na minha catulinha 2 min
  97. 97 Casar e descasar 3 min
  98. 98 O cego e o moço 1 min
  99. 99 O cego e o mealheiro 2 min
  100. 100 O avarento 2 min
  101. 101 Os trez conselhos 4 min
  102. 102 O sacco das nozes 2 min
  103. 103 O sapateiro pobre 2 min
  104. 104 O signal da Nobreza 1 min
  105. 105 A estatua que come 2 min
  106. 106 As adivinhas em anexins 2 min
  107. 107 A mulher teimosa 1 min
  108. 108 O jogo do Pira 1 min
  109. 109 O caso do tio Jorge Coutinho 3 min
  110. 110 Os dois irmãos e a mulher morta 8 min
  111. 111 Os trez patrões 1 min
  112. 112 Para quem canta o cuco? 1 min
  113. 113 Tudo andaremos 1 min
  114. 114 A mulher que cegou o marido 1 min
  115. 115 O tolo e as moscas 1 min
  116. 116 Já que tanto teima 1 min
  117. 117 Tic-taco 2 min
  118. 118 As orelhas do abbade 1 min
  119. 119 Os duzentos carneiros 1 min
  120. 120 Lenda do Paraiso 1 min
  121. 121 Lenda da mãe de Sam Pedro 2 min
  122. 122 A tunica de Christo 1 min
  123. 123 O principe mendigo 1 min
  124. 124 O lavrador e o ermitão 1 min
  125. 125 O thesouro enterrado 1 min
  126. 126 As vozes dos animaes 2 min
  127. 127 Os ditados novellescos 4 min
  128. 128 Litteratura dos Contos populares em Portugal 42 min
  129. 129 O rey Leir 2 min
  130. 130 A dama Pé de Cabra 5 min
  131. 131 A morte sem merecimento 2 min
  132. 132 A linhagem dos Marinhos 2 min
  133. 133 Exemplo do Philosopho 3 min
  134. 134 Exemplo dos trez amigos 3 min
  135. 135 Exemplo allegorico da Redempção 3 min
  136. 136 A justiça de Trajano 2 min
  137. 137 A morte dos Avarentos 2 min
  138. 138 As miserias da riqueza 3 min
  139. 139 O que Deus faz é por melhor 3 min
  140. 140 Um homem de taverna 2 min
  141. 141 Os quatro ribaldos 3 min
  142. 142 A boa andança d'este mundo 5 min
  143. 143 Os dous caminhos 2 min
  144. 144 A papisa Joanna 3 min
  145. 145 O firmal de prata 1 min
  146. 146 Os quatro ladrões 2 min
  147. 147 O cavalleiro e o pacto com o diabo 5 min
  148. 148 O diabo escudeiro 3 min
  149. 149 As maas artes das molheres 4 min
  150. 150 O rey e os cortezãos 3 min
  151. 151 As vistiduras honradas 1 min
  152. 152 Rosimunda 4 min
  153. 153 A bilha de azeite 6 min
  154. 154 O ermitão e o ladrão 2 min
  155. 155 D'aquellas sete ao dia 4 min
  156. 156 A donzella recatada 5 min
  157. 157 O odio endurecido 4 min
  158. 158 Minha mãe, calçotes 1 min
  159. 159 O real bem ganhado 7 min
  160. 160 O segredo revelado 8 min
  161. 161 A prova das laranjas 4 min
  162. 162 Os dois irmãos 14 min
  163. 163 Dom Simão 6 min
  164. 164 Os tres conselhos 12 min
  165. 165 Quanto vale a boa sogra 7 min
  166. 166 O que Deus faz é pelo melhor 4 min
  167. 167 A rainha virtuosa e as duas irmãs 13 min
  168. 168 Quem tudo quer, tudo perde 6 min
  169. 169 O falso principe e o verdadeiro 18 min
  170. 170 Constancia de Grizelia 14 min
  171. 171 O barbeiro do rei 5 min
  172. 172 O achado da bolsa 5 min
  173. 173 O capão tornado sapo 2 min
  174. 174 Os poderes do ouro 5 min
  175. 175 O thesouro escondido 1 min
  176. 176 Erramos (E Ramos? 1 min
  177. 177 O pagem da rainha 5 min
  178. 178 A ingratidão dos filhos 6 min
  179. 179 A usura de Nossa Senhora 1 min
  180. 180 O medico de boa fé 1 min
  181. 181 Não escapa de ladrão 1 min
  182. 182 A venda das gallinhas 1 min
  183. 183 O roubo do vestuario 1 min
  184. 184 A roupa dos mendigos 1 min
  185. 185 A casa dos mortos 1 min
  186. 186 As botas fiadas 1 min
  187. 187 A matrona de Epheso 1 min
  188. 188 Tejo, Douro e Guadiana 1 min
  189. 189 Lenda da Lua e da Agua 1 min
  190. 190 Lenda do Milho e do Centeio 1 min
  191. 191 Lenda das manchas da Lua 2 min
  192. 192 Lenda de Fevereiro 1 min
  193. 193 Lenda da Serpente, do Sapo e do Sardão 1 min
  194. 194 Porque os cães se cheiram 1 min
  195. 195 Lendas dos animaes 1 min
  196. 196 A prova dos lobos 1 min
  197. 197 A obra de S. Pedro 1 min
  198. 198 O canto do gallo 1 min
  199. 199 Lenda da codorniz 1 min
  200. 200 Nossa Senhora e a solha 1 min
  201. 201 Lenda do manto de Nossa Senhora 1 min
  202. 202 Lenda dos tremoços 1 min
  203. 203 Lenda de Nossa Senhora 1 min
  204. 204 A submersão das cidades 1 min
  205. 205 A lenda dos ferreiros 1 min
  206. 206 Lenda da ponte de Domingos Terne 1 min
  207. 207 Lenda da amendoeira 1 min
  208. 208 A ponte da Misarella 1 min
  209. 209 Lenda de Simancas 1 min
  210. 210 Lenda de Lamego 1 min
  211. 211 Origem do nome de Lisboa 1 min
  212. 212 A sepultura dos dois irmãos 2 min
  213. 213 Fabula da raposa e do mocho 1 min
  214. 214 A aguia e a coruja 1 min
  215. 215 A raposa e o lobo 2 min
  216. 216 A raposa no gallinheiro 1 min
  217. 217 A raposa e o gallo 1 min
  218. 218 O lobo e a ovelha 1 min
  219. 219 Notas comparativas · Part 1 1 hr 2 min
  220. 220 Notas comparativas · Part 2 54 min