Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
A da varanda
Era uma vez um mercador que tinha uma filha linda como as estrellas e ladina como os diabos. Pegado á varanda d’ella era o quintal do rei. Todas as tardes ella ia regar as suas flôres, e tinha um grande manjaricão. O rei começou a gostar muito d’ella, e já a esperava á hora certa para a vêr, e perguntava-lhe sempre: Oh menina, visto ser De tanta discrição, Hade-me saber dizer Quantas folhas tem o seu manjaricão? Ella dava-lhe o troco, dizendo:
Vossa magestade, que sabe Lêr, escrever e contar, Hade saber quantos bagos De areia tem o mar? O rei começou então a vêr se podia pregar uma peça á rapariga, e aproveitou uma occasião em que o mercador tinha sahido para fóra da terra. Arranjou uma tenda com quinquilherias, e foi vestido de tendeira a casa d’ella. A filha do mercador mandou-a entrar sem suspeitar mal; o rei levava um annel muito rico, que deixou a rapariga encantada. Gabou-o muito com pena de o não poder comprar; mas a tendeira disse-lhe:, Eu, minha menina, dou-lhe o annel se me der um beijinho; estou perdida por si; mesmo que seja por cima d’este véo que trago pela cara.
Quem mal não pensa mal não vê, a rapariga deu o beijo e ficou com o annel. De tarde quando foi regar as flôres, appareceu o rei, como de costume: Oh menina, visto ser De tanta discrição, Hade-me saber dizer Quantas folhas tem o seu manjaricão? E ella retrocou logo: Vossa magestade que sabe Lêr, escrever e contar, Hade saber quantos bagos De areia tem o mar? O rei, que ficou calado, continuou: E aquelle beijo que deu Mesmo por cima do véo?… A rapariga ficou capaz de morrer; fez-se muito vermelha e jurou de si para si que se havia de vingar.
Vae um dia, veste-se de preta, e foi a casa do rei offerecer-se para criada; primeiro combinou com o seu criado, que de noite botasse na varanda do rei a cabra que tinham no quintal. O rei tomou logo a pretinha para si, porque era muito engraçada, e com medo que ella lhe fugisse deitou-a n’um quarto ao pé do seu, com uma fita amarrada ao braço d’ella. De noite o rei puchou pela fita e ainda a pretinha respondeu; mas assim que o rei pegou no primeiro somno, a rapariga desamarrou-se, foi buscar a cabra muito devagarinho, pôl-a em seu logar, e foi-se embora.
Quando rei acordou, lembrou-se da pretinha, que era de encantar, puchou-a pela fita para a sua cama, mas a cabra começou a berrar, e o rei espantado a gritar que tinha o diabo em casa; acudiu muita gente e todos viram a cabra em vez da preta no quarto do rei. No outro dia á tarde, o rei foi vêr a filha do mercador, que andava a regar, e perguntou-lhe: Oh menina, visto ser De tanta discrição, Hade-me saber dizer Quantas folhas tem o seu manjaricão?
E ella, em despique: Vossa magestade, que sabe Lêr! escrever e contar, Hade saber quantos bagos De areia tem o mar? Diz o rei: E o beijinho por cima do véo?… E ella: E a cabra que fez méo, méo?… O rei conheceu que ella o tinha disfructado, mas achou-lhe graça. A rapariga não quiz ficar por aqui. Soube que o rei ia para uma caçada, vestiu-se de homem, montou n’uma mula, e levou comsigo uma mascara, e foi seguindo a comitiva de longe. Depois de muito andar, o rei disse para parar um pouco, e que o deixassem sósinho.
Assim que os cavalleiros se afastaram para longe, a rapariga tira a mascara da algibeira, saca de um punhal e vae para o rei, como quem quer matal-o, e grita-lhe:, Beije já o rabo da minha mula, senão mato-o aqui já. N’aquelles apertos, o rei como estava ali sósinho beijou o rabo da mula. A rapariga voltou para casa; no outro dia estava regando as flores, e o rei appareceu, e fez as perguntas do costume: Oh menina, visto ser De tanta discrição,
Hade-me saber dizer Quantas folhas tem o seu manjaricão? E ella : Vossa magestade, que sabe Lêr, escrever e contar, Hade saber quantos bagos De areia tem o mar? E o rei: E aquelle beijo que deu Mesmo por cima do véo?… Ella : E a cabra que fez méo, méo?… O rei: Não se finja tão fula. Ella: E o beijo no rabo da mula? O rei lembrou-se do acontecido, achou-lhe muita graça, e quando o mercador voltou á terra foi pedir-lhe a filha em casamento, porque com uma mulher tão esperta havia de ser por força muito feliz. (Algarve.) Notas 28.
A da varanda., Pertence ao cyclo da Maria Sabida. Em uma variante que ouvimos no Porto ha o estribilho: E a cabra na cama, A fazer de madama?
End of chapter
Vesper stopped here. Sleep well.