Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
A filha do lavrador
Era uma vez um principe; todas as vezes que vinha lavar-se á varanda do seu quarto, via defronte a filha de um lavrador, que era muito linda. Ora n’aquelle tempo a verdadeira nobreza era a dos lavradores, e por isso o principe fallava para ella, e dizia:, Deus vos salve, filha de lavrador. E ella respondia:, E a vós, principe e real senhor. Elle conversava para ella, e perguntou-lhe se não queria encontrar-se na grande feira do anno, que se fazia?
Ella disse que não, mas pediu licença ao pae, foi adiante e metteu-se no quarto da estalagem onde havia de pernoitar o principe. Quando disseram ao principe que estava ali uma mulher, elle respondeu:, É o mesmo. Entrou para o quarto; viu uma moça muito linda, mas não a conheceu. Apagou a luz e ficaram toda a noite juntos. Pela manhã muito cedo ella arranjou-se para partir, e o principe perguntou-lhe o que é que ella queria em lembrança d’aquella noite; ella pediu-lhe a espada.
O principe não teve remedio senão dar-lh’a. Passados dias, o principe fez os mesmos cumprimentos:, Deus vos salve, filha de lavrador., E a vós tambem, real senhor., Então a menina não vae amanhã á romaria, para se encontrar lá comigo? Ella disse que não, mas foi adiante e com tal geito que ficou no logar onde o principe tinha de dormir aquella noite. Ora já se tinha passado muito tempo, e a filha do lavrador tinha tido ás escondidas um menino, que estava a criar e era o retrato do principe.
D’esta vez as cousas passaram-se como da outra, e quando foi pela manhã cedo, o principe disse-lhe que pedisse o que queria, e ella disse que só queria o cinto que elle usava. Já se sabe, veiu a ter outro menino. Foi ainda uma terceira vez convidada para um grande arraial, e ella lá se encontrou com o principe sem elle saber que era a filha do lavrador. D’esta vez tambem lhe perguntou o que é que ella queria, e a moça pediu-lhe o relogio.
Passado o tempo tambem teve uma menina, que pôz a criar com os outros dois filhos do principe. Um dia disse elle:, Filha de lavrador, vou-me casar. Não queres vir á minha boda? Elia disse que não; mas no dia do casamento entrou pelo palacio dentro com os trez meninos, um com a espada, outro com o cinto, e a menina com o relogio. Deixaram-na entrar, e ella foi para a meza. O principe conheceu aquellas trez prendas que dera, sem saber a quem, e viu que os meninos eram o seu retrato.
No fim do jantar disse que cada um havia de contar a sua historia, e que elle é que começaria. Disse então:, Um dia um homem perdeu uma chave de ouro, e arranjou uma de prata para servir-se; mas aconteceu achar outra vez a chave que tinha perdido, e agora quero que os senhores me digam de qual d’ellas se deve servir d’aqui em diante, da de ouro ou da de prata? Disseram todos:, Da chave de ouro! Da primeira. O principe levantou-se, e foi buscar a filha do lavrador, que estava a um canto da meza, e disse:, A esta é que tomo por mulher; e estes infantes são os meus filhos, que eu tinha perdido.
A festa continuou muito alegre, e d’ali se foram a receber com grandes alegrias. (Santa Maria-Famalicão.) Notas 24. A filha do lavrador., Pertence ao cyclo da Maria Sabida.
End of chapter
Vesper stopped here. Sleep well.