Contos Tradicionaes do Povo Portuguez O real bem ganhado

Contos Tradicionaes do Povo Portuguez

Teófilo Braga

O real bem ganhado

Chapter 159 of 219 7 min aloud CC BY-SA 4.0

Aconteceu que um domingo, estando um ermitão á porta da ermida, viu atravessar pelo campo um pobre lavrador carregado de rêdes e armadilhas, que a seu parecer ia armar aos passaros. O ermitão chegou a elle, e lhe perguntou de donde era e adonde ia; o qual respondeu:, Sou de meia legua de donde estamos, e entendi hoje na estação que fez o cura, que o Espirito Santo deceu ao mundo em figura de pomba, e eu desejo de o vêr e achar, e tomei estas rêdes emprestadas, e venho-as armar, e se o posso aver n’ellas, lhe ei de pedir que aja misericordia comigo, dando-me mantença para cada dia, que eu e minha mulher com pão e agua da fonte nos contentamos.

O bom do ermitão, visto isto, levou á ermida e deu-lhe quasi todas as offertas que aquelle dia avia recebido, e lhe disse:, Irmão, tomae isto, comei vós e vossa mulher; mas é necessario que me digaes qual quereis mais, um real bem ganhado, ou cento mial ganhados? O pobre homem tomou o pão, e com alegria se foi a sua casa, dizendo ao Ermitão que averia conselho com sua mulher, qual era melhor, e tornaria a dizer-lh’o. E tornando a casa, comeram contentes, e ouveram conselho qual tomariam, um real bem ganhado ou cento mal ganhados; quizeram ambos de um accordo um real bem ganhado, antes do que cento mal ganhados, e com isto tornou o pobre homem ao Ermitão a dizer-lh’o para que lh’o desse; o qual com muito contentamento, por vêr que soube escolher, lhe deu um real em dous meios, como ora se costumam, dizendo-lhe:, Este é bem ganhado, com elle vos fará Deus mercê.

E assi se tornou o lavrador para casa contente; porém no caminho, antes de chegar a ella, achou dous cachopos que pegados um no outro em grande briga andavam, dando-se de punhadas e de cabeçadas, ensanguentadas as boccas de sangue, tão encarniçados em matar-se, sem repousar, que era magoa de vêr. E assi o pobre homem quando os viu, avendo dó de os vêr tratar de tal sorte no campo, d’onde se elle não passara, não podiam ser soccorridos, desejoso de os meter em paz, com caridade se meteu no meio a apartal-os, perguntando a causa da briga.

E ainda que deixavam de se ferir, nem por isso nenhum queria desapegar do outro; mas estando assim pegados, disse um:, Vêdes, ali n’aquelle chão jaz aquella pederneira, que é para ferir lume; eu a vi, e querendo-a tomar, este m’o impide, e a quer elle tomar. O outro respondeu:, Não he assi; mas eu a vi primeiro, e quero-a tomar, e tu queres-m’o tolher e tomal-a para ti. Esta era a causa por que se feriam. O poqre homem vendo que entre elles não havia maneira de paz, porque cada um queria a pedra, e ella não era tão grande que bastasse para a partir, e por vel-os ambos em paz lhe disse:, Filhos, rogo-vos que cesse vossa briga; tomae de mim este real que tenho; cada um leve seu meio real; deixae ora esta pedra, não seja o demo que vos faça fazer algum desmancho.

Os moços, visto o real, e rogo do bom homem, acceitaram a paz, e cada um tomou seu meio real, deixando a pedra ao lavrador se foram contentes, e elle a tomou, não por lhe parecer que teria valia, senão para testemunha, que quando dissesse que lhe dera o real por ella, fosse crido, e assi a levou todavia. Chegando achou sua mulher á porta, que o esperava, desejosa de vêr o real bem ganhado, que o marido havia de trazer. N’isto elle que chega, e mostrou-lhe a pedra que trazia, e disse-lhe o caso que acontecera.

A mulher logo á primeira face teve desgosto por não vêr com seus olhos o real; tomando a pedra da mão ao marido, arremessando-a para dentro da casa, disse:, Ah! que nem este real nos veiu ter á mão. Por que os paes dos moços, que os viram escalavrados e souberam d’elles a briga e donde e sobre que fôra, e quem fizera a paz e como lhes dera um real, que elles sabiam que o pobre homem não tinha de seu, ambos juntos lh’o agradeceram muito, e cada um d’elles por si lh’o pagou com grande ventagem, e d’alli em diante lhe faziam muitas honras conhecidas, que mostravam ser feitas pelo amor com que lhe tirou os filhos do arroido e peleja que tinham.

Aconteceu que em este tempo passou por aquelle logar um fidalgo, que por mandado de elrey ia a outro reino por Embaixador, e levava comsigo dez ou doze homens; e conveiu-lhe ficar ali uma noite em aquella aldeia, esperando certo recado da côrte. E ainda que para seu aposento lhe deram as melhores casas que avia no logar, não lhe bastaram, e foi neeessario agasalhar alguns dos seus em outras casas, e agasalhando-se pela aldeia, coube a este homem um d’elles.

Este homem, criado do Embaixador, depois de lançado na cama, sendo passado uma grande parte da noite, acordou e viu que a seu parecer avia resplandor na casa, que a tal hora da noite, conforme ao tempo não se permittia, e admirado, foi posto em confusão, d’onde aquillo podia proceder. E por saber o que era se ergue como sesudo, e mui quietamente se foi para onde via a claridade, e pouco a pouco, indo para ella chegou donde estava a pedra.

Tanto que chegou a ella e a viu, a tomou e a guardou; até que vindo o dia a viu melhor, e parecendo-lhe de grande preço, se foi ao senhor Embaixador, com quem elle vinha, e mostrando-lh’a lh’a deu, e disse donde a achára; e o senhor, vista a pedra, a estimou em muito, e mandou logo chamar o homem em cuja casa se achára, e perguntando-lhe donde a ouvera e de que lhe servia, e o bom do homem lhe disse:, Senhor, não serve de nada; se vossa mercê a quer, tome-a, que eu folgarei muito d’isso, que um real me custou.

E contou-lhe como e de que maneira, assi como a historia atégora o contou; do qual o fidalgo se maravilhou, e teve para si, que pelo muito que vale o real bem ganhado, permittiu Deus que lhe deparasse aquella pedra áquelle homem. E o Embaixador metteu a mão em uma boeta, em que levava dinheiro para sua despeza, e tomando um punhado de moedas de ouro em que averia duzentos mil réis lhe deu, dizendo:, Irmão, esta pedra já que m’a dais, eu a quero.

O pobre homem não queria tanto dinheiro, e a importunação do nobre fidalgo tomou, e se foi para sua casa com muita alegria dar conta a sua mulher; comprou herdades e chegou a ser chamado o rico homem, e elle o era. (Trancoso, Contos e Historias, Parte i, n.º xiii.) Notas

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Contents

Contos Tradicionaes do Povo Portuguez

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  1. 01 Advertencia Preliminar 15 min
  2. 02 Da Novellistica Popular 1 hr 3 min
  3. 03 A cara de boi 10 min
  4. 04 O velho Querecas 8 min
  5. 05 O surrão 5 min
  6. 06 A saia de esquilhas 7 min
  7. 07 As trez fadas 5 min
  8. 08 A filha do rei mouro 7 min
  9. 09 As fiandeiras 5 min
  10. 10 Cravo, rosa e jasmim 9 min
  11. 11 O magico 5 min
  12. 12 O mestre das artes 6 min
  13. 13 O aprendiz do Mago 5 min
  14. 14 A bixa de sete cabeças 7 min
  15. 15 O conde-soldadinho 3 min
  16. 16 A sardinhinha 6 min
  17. 17 Maria da Silva 5 min
  18. 18 A rosa branca na bocca 3 min
  19. 19 O cavallinho das sete côres 4 min
  20. 20 A muda mudella 4 min
  21. 21 O sapatinho de setim 7 min
  22. 22 A madrasta 4 min
  23. 23 O ovo e o brilhante 3 min
  24. 24 Cabellos de ouro 4 min
  25. 25 A carpinteirasinha 3 min
  26. 26 A filha do lavrador 4 min
  27. 27 A feia que fica bonita 4 min
  28. 28 O peixinho encantado 4 min
  29. 29 O figuinho da figueira 2 min
  30. 30 A da varanda 5 min
  31. 31 A noiva formosa 3 min
  32. 32 A noiva do corvo 4 min
  33. 33 A paraboinha de ouro 4 min
  34. 34 O principe que foi correr sua ventura 11 min
  35. 35 Maria Subtil 8 min
  36. 36 O coelho branco 3 min
  37. 37 Clarinha 4 min
  38. 38 Bola-Bola 2 min
  39. 39 Linda Branca 4 min
  40. 40 O Rei-Escuta 1 min
  41. 41 As cunhadas do rei 14 min
  42. 42 Os sete encantados 3 min
  43. 43 As sonsas 4 min
  44. 44 A mão do finado 14 min
  45. 45 O rei de Napoles 8 min
  46. 46 O matador dos bichos 5 min
  47. 47 As nozes 4 min
  48. 48 As trez cidras do amor 6 min
  49. 49 A bengala de dezeseis quintaes 18 min
  50. 50 A torre de Babylonia 5 min
  51. 51 Desanda cacheira 8 min
  52. 52 O sal e a agua 4 min
  53. 53 As crianças abandonadas 4 min
  54. 54 O afilhado de Santo Antonio 3 min
  55. 55 A filha do diabo 4 min
  56. 56 As trez maçãsinhas de ouro 5 min
  57. 57 O sargento que foi ao inferno 8 min
  58. 58 A princeza que adivinha 7 min
  59. 59 A adivinha do rei 3 min
  60. 60 O boi Cardil 5 min
  61. 61 O camareiro do rei 7 min
  62. 62 O Palmeiriz d'Oliva 5 min
  63. 63 O bolo refolhado 2 min
  64. 64 A mirra 3 min
  65. 65 A mulher curiosa 2 min
  66. 66 As favas 2 min
  67. 67 A velha das gallinhas 2 min
  68. 68 A Riqueza e a Fortuna 4 min
  69. 69 Março Marçagão 2 min
  70. 70 Alegria da viuva 3 min
  71. 71 A carpideira e a viuva 1 min
  72. 72 Frei João sem cuidados 3 min
  73. 73 João Ratão (ou Grillo 3 min
  74. 74 Os trez irmãos 4 min
  75. 75 As barras de ouro 3 min
  76. 76 Pedro de Malas-Artes 7 min
  77. 77 Santa Helena 3 min
  78. 78 O guardador de porcos 3 min
  79. 79 Nascer para ser rico 5 min
  80. 80 Dom Caio 3 min
  81. 81 Os dez anõesinhos da tia Verde-Agua 3 min
  82. 82 O compadre diabo 5 min
  83. 83 Os corcundas 2 min
  84. 84 A mulher gulosa 2 min
  85. 85 As irmãs gagas 1 min
  86. 86 O tinhoso, o ranhoso e o sarnoso 1 min
  87. 87 Dá-me o meu meio tostão 3 min
  88. 88 O soldado que foi para o céo 4 min
  89. 89 O thesouro do enforcado 3 min
  90. 90 Os peixes do guardião 1 min
  91. 91 A cobra e o cordão do frade 1 min
  92. 92 O caldo de pedra 2 min
  93. 93 A enfiada de petas 3 min
  94. 94 Sempre não 3 min
  95. 95 Manoel Feijão 4 min
  96. 96 Cahiu-me na minha catulinha 2 min
  97. 97 Casar e descasar 3 min
  98. 98 O cego e o moço 1 min
  99. 99 O cego e o mealheiro 2 min
  100. 100 O avarento 2 min
  101. 101 Os trez conselhos 4 min
  102. 102 O sacco das nozes 2 min
  103. 103 O sapateiro pobre 2 min
  104. 104 O signal da Nobreza 1 min
  105. 105 A estatua que come 2 min
  106. 106 As adivinhas em anexins 2 min
  107. 107 A mulher teimosa 1 min
  108. 108 O jogo do Pira 1 min
  109. 109 O caso do tio Jorge Coutinho 3 min
  110. 110 Os dois irmãos e a mulher morta 8 min
  111. 111 Os trez patrões 1 min
  112. 112 Para quem canta o cuco? 1 min
  113. 113 Tudo andaremos 1 min
  114. 114 A mulher que cegou o marido 1 min
  115. 115 O tolo e as moscas 1 min
  116. 116 Já que tanto teima 1 min
  117. 117 Tic-taco 2 min
  118. 118 As orelhas do abbade 1 min
  119. 119 Os duzentos carneiros 1 min
  120. 120 Lenda do Paraiso 1 min
  121. 121 Lenda da mãe de Sam Pedro 2 min
  122. 122 A tunica de Christo 1 min
  123. 123 O principe mendigo 1 min
  124. 124 O lavrador e o ermitão 1 min
  125. 125 O thesouro enterrado 1 min
  126. 126 As vozes dos animaes 2 min
  127. 127 Os ditados novellescos 4 min
  128. 128 Litteratura dos Contos populares em Portugal 42 min
  129. 129 O rey Leir 2 min
  130. 130 A dama Pé de Cabra 5 min
  131. 131 A morte sem merecimento 2 min
  132. 132 A linhagem dos Marinhos 2 min
  133. 133 Exemplo do Philosopho 3 min
  134. 134 Exemplo dos trez amigos 3 min
  135. 135 Exemplo allegorico da Redempção 3 min
  136. 136 A justiça de Trajano 2 min
  137. 137 A morte dos Avarentos 2 min
  138. 138 As miserias da riqueza 3 min
  139. 139 O que Deus faz é por melhor 3 min
  140. 140 Um homem de taverna 2 min
  141. 141 Os quatro ribaldos 3 min
  142. 142 A boa andança d'este mundo 5 min
  143. 143 Os dous caminhos 2 min
  144. 144 A papisa Joanna 3 min
  145. 145 O firmal de prata 1 min
  146. 146 Os quatro ladrões 2 min
  147. 147 O cavalleiro e o pacto com o diabo 5 min
  148. 148 O diabo escudeiro 3 min
  149. 149 As maas artes das molheres 4 min
  150. 150 O rey e os cortezãos 3 min
  151. 151 As vistiduras honradas 1 min
  152. 152 Rosimunda 4 min
  153. 153 A bilha de azeite 6 min
  154. 154 O ermitão e o ladrão 2 min
  155. 155 D'aquellas sete ao dia 4 min
  156. 156 A donzella recatada 5 min
  157. 157 O odio endurecido 4 min
  158. 158 Minha mãe, calçotes 1 min
  159. 159 O real bem ganhado 7 min
  160. 160 O segredo revelado 8 min
  161. 161 A prova das laranjas 4 min
  162. 162 Os dois irmãos 14 min
  163. 163 Dom Simão 6 min
  164. 164 Os tres conselhos 12 min
  165. 165 Quanto vale a boa sogra 7 min
  166. 166 O que Deus faz é pelo melhor 4 min
  167. 167 A rainha virtuosa e as duas irmãs 13 min
  168. 168 Quem tudo quer, tudo perde 6 min
  169. 169 O falso principe e o verdadeiro 18 min
  170. 170 Constancia de Grizelia 14 min
  171. 171 O barbeiro do rei 5 min
  172. 172 O achado da bolsa 5 min
  173. 173 O capão tornado sapo 2 min
  174. 174 Os poderes do ouro 5 min
  175. 175 O thesouro escondido 1 min
  176. 176 Erramos (E Ramos? 1 min
  177. 177 O pagem da rainha 5 min
  178. 178 A ingratidão dos filhos 6 min
  179. 179 A usura de Nossa Senhora 1 min
  180. 180 O medico de boa fé 1 min
  181. 181 Não escapa de ladrão 1 min
  182. 182 A venda das gallinhas 1 min
  183. 183 O roubo do vestuario 1 min
  184. 184 A roupa dos mendigos 1 min
  185. 185 A casa dos mortos 1 min
  186. 186 As botas fiadas 1 min
  187. 187 A matrona de Epheso 1 min
  188. 188 Tejo, Douro e Guadiana 1 min
  189. 189 Lenda da Lua e da Agua 1 min
  190. 190 Lenda do Milho e do Centeio 1 min
  191. 191 Lenda das manchas da Lua 2 min
  192. 192 Lenda de Fevereiro 1 min
  193. 193 Lenda da Serpente, do Sapo e do Sardão 1 min
  194. 194 Porque os cães se cheiram 1 min
  195. 195 Lendas dos animaes 1 min
  196. 196 A prova dos lobos 1 min
  197. 197 A obra de S. Pedro 1 min
  198. 198 O canto do gallo 1 min
  199. 199 Lenda da codorniz 1 min
  200. 200 Nossa Senhora e a solha 1 min
  201. 201 Lenda do manto de Nossa Senhora 1 min
  202. 202 Lenda dos tremoços 1 min
  203. 203 Lenda de Nossa Senhora 1 min
  204. 204 A submersão das cidades 1 min
  205. 205 A lenda dos ferreiros 1 min
  206. 206 Lenda da ponte de Domingos Terne 1 min
  207. 207 Lenda da amendoeira 1 min
  208. 208 A ponte da Misarella 1 min
  209. 209 Lenda de Simancas 1 min
  210. 210 Lenda de Lamego 1 min
  211. 211 Origem do nome de Lisboa 1 min
  212. 212 A sepultura dos dois irmãos 2 min
  213. 213 Fabula da raposa e do mocho 1 min
  214. 214 A aguia e a coruja 1 min
  215. 215 A raposa e o lobo 2 min
  216. 216 A raposa no gallinheiro 1 min
  217. 217 A raposa e o gallo 1 min
  218. 218 O lobo e a ovelha 1 min
  219. 219 Notas comparativas · Part 1 1 hr 2 min
  220. 220 Notas comparativas · Part 2 54 min