Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
Rosimunda
Huum Rey dos Lombardos que avia nome Alburno era muy forte e muy poderoso em armas. Este Rey ouve batalha com outro rey. E Alburno venceo e matouo, e tomou huuma filha daquelle Rey por molher, que avia nome Rosimunda. E do testo da cabeça de seu padre, que matara, mandou fazer huuma copa e encastonha em prata e bevia per ella. E este Rey Alburno entrou em Italia e tomou todallas cidades della pella mayor parte. E estando elle em huuma cidade que chamom Verona, fez huum grande convite.
E mandou alli trazer a copa que mandara fazer da cabeça do rey que matara, padre da sua molher Rosimunda. E beveu per aquella copa e fez a sua molher que bevesse per ella, dizendolhe:, Beve com teu padre. E quando ella esto soube, ouve grande odio a elrey seu marido. E elrey avia huum duque que dormia com huuma donzella da rraynha. E huum dia nõ veendo hy elrrey, dormiu com a rraynha, cuydando que era a donzella. E a Raynha fezlhe conhecer, e disselhe:, Sabe por certo que tu as feyta tal cousa, que ou tu matarás a elrrey Alburno, ou tu morrerás das suas maãos.
E eu quero que me tu vingues delle que matou meu padre e fez copa da sua cabeça, e fez a my que bevesse per ella. E o duque lhe disse o nom fazia, mas cataria outro que o fezesse. E entom ella guisou como se fezesse. E tyrou as armas fora da camara delrrey e legou a espada que elle tinha aa cabeceyra em tal guisa que se nom podese tirar. E depois que elrrey jouve em seu leyto, entrou aquelle que o queria matar. E quando o sentyo elrrey, saltou fóra e quiz tirar a espada e nom pôde.
E entom começou elrrey de sse defender muy fortemente com huuma cadeyra que hy estava, mas pouco lhe valeo seu ardimento nem sua fortaleza. Ca o outro andava muy bem armado e pôde mays que elrrey e matouo. E tomou todollos thesouros que achou en no paaço e fugio com a rraynha Rosimunda, pera huuma cidade que ha nome Ravena. E aly se pagou a rraynha de huum mancebo que era perfecto de Ravena. E por casar com ella deu peçonha aaquelle com quem fugira.
E elle embevedoua, syntio que era peçonha e fez que a Rosimunda que bevesse o que ficara a força da espada. E assy morrerom ambos. E assy parece que pouco prestou a fortaleza do corpo a elrrey Alburno, nem ao outro que o matou, ca ambos morrerom maa morte. (Fl. 77.) Notas 149. Rosimunda., Nas Lendas allemãs, de Jacob Grimm (Les Veillées allemandes, trad. de L'Heretier de l'Ain), t. II, p. 45, vem esta tradição colligida de Paulo Diacono, e de Gotfrid.
Na poesia popular italiana ainda subsiste esta tradição germanica na fórma de romance, com o titulo a Dona Lombarda, segundo a interpretação de Nigra. Sabatini, fallando d'este canto, define a sua propagação na Italia do norte: «percorrendo dal norte al sud, la ritroviamo in Piemonte, nel Monferrato, nel Veneto e a Ferrara; nella Toscana poi più non vive ma v'é ancora chi ricorda averla udita. Si ritrova nelle Marche in Orvieto, a Viterbo, in Roma finalmente non s'ode cantar che da pochi, e cosi proseguendo non si rinviene più nelle terre meridionali e in Sicilia non se ne ha traccia veruna.» (Rivista di Letteratura popolare, p. 14.)
A obliteração da lenda á medida que se avança para o sul indica a sua origem germanica, e portanto a fórma litteraria portugueza proveiu de uma fonte erudita.
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Vesper stopped here. Sleep well.