Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
A morte dos Avarentos
Hum avarento jazia muy mal enfermo pera morte. Este homem avia muytas riquezas e nunca se aproveitava dellas nem tanto a deus, nem quanto ao mundo, nem pera seu corpo. E jazendo assy chegado aa morte, sua molher entendendo que nom avia em elle vida, chamou huma sua servente e disselhe:, Vay tostemente e compra tres varas de burel pera envolvermos meu marido em que o soterrem. E disselhe a servente:, Senhora, vos avedes huma grande tea de pano de linho, dadelhe quatro ou cinquo varas ou aquello que lhe avondar em que o soterrem.
E a senhora disselhe queyxosamente:, Vay faze o que te mando, ca bem lhe avondarom tres varas de burel, segundo eu sey a sua condiçom e a sua vontade. E estando en esto fallando a dona e a servente, ouviu esto aquel homem avarento, e esforçousse quanto pode pera fallar e disse:, Nom comprade mais que tres varas de burel, e fazedeme o saco curto e grosso que se nom leixe en o lodo. E depois que elle morreu assi lhe fezerom. E a molher casou com outro e lograram os beens que tesourou o avarento.
Mas per outra guisa fez outro homem que avia muytas riquezas. E quando se vio enfermo de morte, mandou trazer seu aver ante sy. E começoulhe a rrogar que o ajudasse en tal guisa que nom morresse. E quando viu que nom avia dellas ajuda nem conforto disse:, Oo riquezas enganosas, eu vos amey de todo coraçom e vos prezey e honrrey. E agora que soõ posto en necessidade nom posso aver de vós nenhum conselho nem ajuda, e queredesme desemparar e nom vos queredes hir comigo.
Pois assy he, eu vos leixarey de todo. E tanto que esto disse, deu-as todas em esmolas a pobres. (Ib., Fl. 48.) Notas 134. A morte dos avarentos., Nas facecias populares, o avarento apparece em uma grande variedade de episodios; é natural que os pregadores catholicos se apropriassem de um fundo tradicional conhecido. (Vid. n.º 99.)
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Vesper stopped here. Sleep well.