Contos Tradicionaes do Povo Portuguez A bixa de sete cabeças

Contos Tradicionaes do Povo Portuguez

Teófilo Braga

A bixa de sete cabeças

Chapter 14 of 219 7 min aloud CC BY-SA 4.0

Era uma vez um filho de um rei que era muito amigo do filho de um sapateiro; brincavam sempre juntos, e o principe não tinha vergonha de acompanhar com o filho do sapateiro por toda a parte. O rei não estava contente com aquella confiança, e disse ao sapateiro para mandar o filho para muito longe, dando-lhe muito dinheiro. O rapaz foi-se embora, mas o principe assim que soube d’isto fugiu do palacio e foi por esse mundo além á procura do amigo.

Encontrou-o passado algum tempo, abraçaram-se e foram ambos de jornada. Indo mais para diante, encontraram uma formosa menina amarrada a urna arvore. O principe assim que a viu ficou logo muito apaixonado, e perguntou-lhe quem é que a tinha deixado ali. Ella respondeu que não podia dizer nada, mas só pedia que a salvassem. O principe conheceu que ella era de sangue real, e pensou em casar com ella. Pôl-a na garupa do seu cavallo e foram caminhando todos trez.

Pernoitaram n’aquella noite em um bosque onde estavam trez cruzes; o principe e a donzella adormeceram, mas o filho do sapateiro deixou-se ficar acordado para o que desse e viesse. Lá por essa noite adiante viu vir tres pombas e pousarem cada uma na sua cruz. A primeira pomba disse:, O principe cuida que hade casar com a donzella, mas em ella passando ao pé d’um laranjal hade pedir uma laranja, e em a comendo hade arrebentar: E quem isto ouvir e não se calar

Em pedra marmore hade-se tornar. A segunda pomba disse:, Ainda não é só isso; ella hade passar por pé de uma fonte e hade querer beber agua, e logo que a beba hade arrebentar: E quem isto ouvir e não se calar Em pedra marmore hade-se tornar. A terceira pomba disse:, Ainda não é só isso; se ella escapar de tudo, assim que chegar a casa, na noite de noivado hade vir uma bixa de sete cabeças que hade matal-a. E quem isto ouvir e não se calar

Em pedra marmore hade-se tornar. Ouviu o filho do sapateiro isto tudo, e quando amanheceu disse ao principe que era melhor voltarem para o reino, porque o rei devia de estar muito amargurado, e que lhe daria o perdão e licença para casar com a donzella, que era de sangue real. O principe deu pelo que disse o filho do sapateiro e metteram-se a caminho. Passaram por um laranjal, e aconteceu o que a pomba tinha dito; mas o filho do sapateiro disse que aquellas laranjas não se vendiam, e foram andando.

Passaram por uma fonte, a menina quiz beber, como a outra pomba tinha dito, mas o filho do sapateiro disse que não havia com que tirar a agua. Até que chegaram ao palacio; o rei ficou muito alegre quando viu o filho, perdoou-lhe, e sabendo que o conselho do filho do sapateiro é que o fizera voltar para casa, deu-lhe licença para viver no palacio em companhia do seu amigo. O principe pediu licença ao pae para casar com a menina que tinha salvado, porque ella era de sangue real; o pae disse que só dava licença ao fim de seis mezes depois de a conhecer melhor e vêr as suas qualidades.

O certo é que o principe casou com ella, e perguntou ao filho do sapateiro o que é que queria de dom no dia do casamento. Elle disse que só queria uma cousa, e era dormir na noite do noivado no mesmo quarto. Lá lhe custou isto, mas o principe sempre consentiu. O amigo deitou-se á porta do quarto, com uma espada escondida, e quando os noivos estavam dormindo sentiu entrar pelo quarto dentro uma grande bicha de sete cabeças. Como elle já esperava isto, descarregou um golpe certeiro e matou o monstro, mas sempre uma gota de sangue espirrou e foi bater na cara da princeza que estava adormecida.

O filho do sapateiro tratou de limpar o sangue que estava pelo chão, e como visse a gota de sangue na cara da princeza foi-lh’o limpar com a ponta de uma toalha molhada. A princeza acordou com aquella friagem, e gritou sobresaltada para o marido:, Vinga-me do teu melhor amigo, que me deu um beijo. O principe levanta-se furioso para matar o amigo que elle julgava traidor; mas elle pede-lhe que demore o seu rigor, para contar a toda a côrte o caso acontecido.

Ajuntou-se toda a gente do palacio; o rapaz começou a relatar tudo, e ia-se tornando pouco a pouco em pedra marmore. Ficaram todos com muita pena de ser tão mal paga aquella fidelidade, e o principe resolveu collocar a estatua de marmore, que fôra o seu maior amigo, no jardim do palacio. O principe costumava levar os filhos a brincarem no jardim, e sentava-se ao pé da estatua chorando com pesar, e dizia:, Quem me dera o meu amigo outra vez vivo., Pois se queres o teu amigo outra vez vivo (disse-lhe uma voz) mata esses teus filhos, e unta esta pedra com sangue innocente.

O principe hesitou, mas cheio de confiança no poder da amisade, degolou os meninos, e a estatua mecheu-se logo e appareceu ali o amigo outra vez vivo. Abraçaram-se muito, e quando o principe se voltou para o logar onde estavam os filhos achou-os muito alegres a brincarem, tendo apenas em volta do pescoço uma fitinha vermelha. Nunca mais se separaram, e d’ali em diante viveram todos muito felizes. (Algarve.) Notas 12. A bicha de sete cabeças., Uma versão de Coimbra vem publicada sob o titulo de Pedro e Pedrito, nos Contos populares portuguezes, n.º LI, com o estribilho:

Quem isto ouvir e contar Em pedra se ha-de tornar. Nos Portuguese folk-tales, colligidos pelo nosso collega Consiglieri Pedroso e traduzidos pelo eminente mythographo Ralston, vem sob o n.º VI com o titulo Pedro and the Prince com algum desenvolvimento. Nos Contos dos irmãos Grimm, n.º 22, O fiel João, e trad. de Fred. Baudry, p. 27, pertence a este cyclo do creado ou do amigo que se sacrifica. Ralston, na introducção aos contos portuguezes, cita este paradigma, bem como o n.º 5 da collecção de Miss Frere, Old Deccan Days, intitulado Rama and Luxaran, e a situação geral em um conto indiano na traducção do Kathá Sarit Ságara por Tawney, vol. I, p. 253.

Muitos contos têm evidentemente uma origem indiana; mas não é esta a unica fonte.

Shared under a licence Portuguese Wikisource CC BY-SA 4.0

“Contos Tradicionaes do Povo Portuguez” by Wikisource contributors, from Portuguese Wikisource (https://pt.wikisource.org/wiki/Contos_Tradicionaes_do_Povo_Portuguez), used under CC BY-SA 4.0.

Checking… —

Narrator

Audio is kept per voice, so a new narrator is read afresh from here on. Anything you have already heard stays as it was.

Finding voices…

Checking what is available…

Reading

Text size
Adjusts the reading column only.

Sleep timer

Vesper fades out over the last twenty-five seconds, so it never cuts.

Contents

Contos Tradicionaes do Povo Portuguez

This text carries no chapter marks of its own, so it is served in equal parts. Nothing has been cut.

  1. 01 Advertencia Preliminar 15 min
  2. 02 Da Novellistica Popular 1 hr 3 min
  3. 03 A cara de boi 10 min
  4. 04 O velho Querecas 8 min
  5. 05 O surrão 5 min
  6. 06 A saia de esquilhas 7 min
  7. 07 As trez fadas 5 min
  8. 08 A filha do rei mouro 7 min
  9. 09 As fiandeiras 5 min
  10. 10 Cravo, rosa e jasmim 9 min
  11. 11 O magico 5 min
  12. 12 O mestre das artes 6 min
  13. 13 O aprendiz do Mago 5 min
  14. 14 A bixa de sete cabeças 7 min
  15. 15 O conde-soldadinho 3 min
  16. 16 A sardinhinha 6 min
  17. 17 Maria da Silva 5 min
  18. 18 A rosa branca na bocca 3 min
  19. 19 O cavallinho das sete côres 4 min
  20. 20 A muda mudella 4 min
  21. 21 O sapatinho de setim 7 min
  22. 22 A madrasta 4 min
  23. 23 O ovo e o brilhante 3 min
  24. 24 Cabellos de ouro 4 min
  25. 25 A carpinteirasinha 3 min
  26. 26 A filha do lavrador 4 min
  27. 27 A feia que fica bonita 4 min
  28. 28 O peixinho encantado 4 min
  29. 29 O figuinho da figueira 2 min
  30. 30 A da varanda 5 min
  31. 31 A noiva formosa 3 min
  32. 32 A noiva do corvo 4 min
  33. 33 A paraboinha de ouro 4 min
  34. 34 O principe que foi correr sua ventura 11 min
  35. 35 Maria Subtil 8 min
  36. 36 O coelho branco 3 min
  37. 37 Clarinha 4 min
  38. 38 Bola-Bola 2 min
  39. 39 Linda Branca 4 min
  40. 40 O Rei-Escuta 1 min
  41. 41 As cunhadas do rei 14 min
  42. 42 Os sete encantados 3 min
  43. 43 As sonsas 4 min
  44. 44 A mão do finado 14 min
  45. 45 O rei de Napoles 8 min
  46. 46 O matador dos bichos 5 min
  47. 47 As nozes 4 min
  48. 48 As trez cidras do amor 6 min
  49. 49 A bengala de dezeseis quintaes 18 min
  50. 50 A torre de Babylonia 5 min
  51. 51 Desanda cacheira 8 min
  52. 52 O sal e a agua 4 min
  53. 53 As crianças abandonadas 4 min
  54. 54 O afilhado de Santo Antonio 3 min
  55. 55 A filha do diabo 4 min
  56. 56 As trez maçãsinhas de ouro 5 min
  57. 57 O sargento que foi ao inferno 8 min
  58. 58 A princeza que adivinha 7 min
  59. 59 A adivinha do rei 3 min
  60. 60 O boi Cardil 5 min
  61. 61 O camareiro do rei 7 min
  62. 62 O Palmeiriz d'Oliva 5 min
  63. 63 O bolo refolhado 2 min
  64. 64 A mirra 3 min
  65. 65 A mulher curiosa 2 min
  66. 66 As favas 2 min
  67. 67 A velha das gallinhas 2 min
  68. 68 A Riqueza e a Fortuna 4 min
  69. 69 Março Marçagão 2 min
  70. 70 Alegria da viuva 3 min
  71. 71 A carpideira e a viuva 1 min
  72. 72 Frei João sem cuidados 3 min
  73. 73 João Ratão (ou Grillo 3 min
  74. 74 Os trez irmãos 4 min
  75. 75 As barras de ouro 3 min
  76. 76 Pedro de Malas-Artes 7 min
  77. 77 Santa Helena 3 min
  78. 78 O guardador de porcos 3 min
  79. 79 Nascer para ser rico 5 min
  80. 80 Dom Caio 3 min
  81. 81 Os dez anõesinhos da tia Verde-Agua 3 min
  82. 82 O compadre diabo 5 min
  83. 83 Os corcundas 2 min
  84. 84 A mulher gulosa 2 min
  85. 85 As irmãs gagas 1 min
  86. 86 O tinhoso, o ranhoso e o sarnoso 1 min
  87. 87 Dá-me o meu meio tostão 3 min
  88. 88 O soldado que foi para o céo 4 min
  89. 89 O thesouro do enforcado 3 min
  90. 90 Os peixes do guardião 1 min
  91. 91 A cobra e o cordão do frade 1 min
  92. 92 O caldo de pedra 2 min
  93. 93 A enfiada de petas 3 min
  94. 94 Sempre não 3 min
  95. 95 Manoel Feijão 4 min
  96. 96 Cahiu-me na minha catulinha 2 min
  97. 97 Casar e descasar 3 min
  98. 98 O cego e o moço 1 min
  99. 99 O cego e o mealheiro 2 min
  100. 100 O avarento 2 min
  101. 101 Os trez conselhos 4 min
  102. 102 O sacco das nozes 2 min
  103. 103 O sapateiro pobre 2 min
  104. 104 O signal da Nobreza 1 min
  105. 105 A estatua que come 2 min
  106. 106 As adivinhas em anexins 2 min
  107. 107 A mulher teimosa 1 min
  108. 108 O jogo do Pira 1 min
  109. 109 O caso do tio Jorge Coutinho 3 min
  110. 110 Os dois irmãos e a mulher morta 8 min
  111. 111 Os trez patrões 1 min
  112. 112 Para quem canta o cuco? 1 min
  113. 113 Tudo andaremos 1 min
  114. 114 A mulher que cegou o marido 1 min
  115. 115 O tolo e as moscas 1 min
  116. 116 Já que tanto teima 1 min
  117. 117 Tic-taco 2 min
  118. 118 As orelhas do abbade 1 min
  119. 119 Os duzentos carneiros 1 min
  120. 120 Lenda do Paraiso 1 min
  121. 121 Lenda da mãe de Sam Pedro 2 min
  122. 122 A tunica de Christo 1 min
  123. 123 O principe mendigo 1 min
  124. 124 O lavrador e o ermitão 1 min
  125. 125 O thesouro enterrado 1 min
  126. 126 As vozes dos animaes 2 min
  127. 127 Os ditados novellescos 4 min
  128. 128 Litteratura dos Contos populares em Portugal 42 min
  129. 129 O rey Leir 2 min
  130. 130 A dama Pé de Cabra 5 min
  131. 131 A morte sem merecimento 2 min
  132. 132 A linhagem dos Marinhos 2 min
  133. 133 Exemplo do Philosopho 3 min
  134. 134 Exemplo dos trez amigos 3 min
  135. 135 Exemplo allegorico da Redempção 3 min
  136. 136 A justiça de Trajano 2 min
  137. 137 A morte dos Avarentos 2 min
  138. 138 As miserias da riqueza 3 min
  139. 139 O que Deus faz é por melhor 3 min
  140. 140 Um homem de taverna 2 min
  141. 141 Os quatro ribaldos 3 min
  142. 142 A boa andança d'este mundo 5 min
  143. 143 Os dous caminhos 2 min
  144. 144 A papisa Joanna 3 min
  145. 145 O firmal de prata 1 min
  146. 146 Os quatro ladrões 2 min
  147. 147 O cavalleiro e o pacto com o diabo 5 min
  148. 148 O diabo escudeiro 3 min
  149. 149 As maas artes das molheres 4 min
  150. 150 O rey e os cortezãos 3 min
  151. 151 As vistiduras honradas 1 min
  152. 152 Rosimunda 4 min
  153. 153 A bilha de azeite 6 min
  154. 154 O ermitão e o ladrão 2 min
  155. 155 D'aquellas sete ao dia 4 min
  156. 156 A donzella recatada 5 min
  157. 157 O odio endurecido 4 min
  158. 158 Minha mãe, calçotes 1 min
  159. 159 O real bem ganhado 7 min
  160. 160 O segredo revelado 8 min
  161. 161 A prova das laranjas 4 min
  162. 162 Os dois irmãos 14 min
  163. 163 Dom Simão 6 min
  164. 164 Os tres conselhos 12 min
  165. 165 Quanto vale a boa sogra 7 min
  166. 166 O que Deus faz é pelo melhor 4 min
  167. 167 A rainha virtuosa e as duas irmãs 13 min
  168. 168 Quem tudo quer, tudo perde 6 min
  169. 169 O falso principe e o verdadeiro 18 min
  170. 170 Constancia de Grizelia 14 min
  171. 171 O barbeiro do rei 5 min
  172. 172 O achado da bolsa 5 min
  173. 173 O capão tornado sapo 2 min
  174. 174 Os poderes do ouro 5 min
  175. 175 O thesouro escondido 1 min
  176. 176 Erramos (E Ramos? 1 min
  177. 177 O pagem da rainha 5 min
  178. 178 A ingratidão dos filhos 6 min
  179. 179 A usura de Nossa Senhora 1 min
  180. 180 O medico de boa fé 1 min
  181. 181 Não escapa de ladrão 1 min
  182. 182 A venda das gallinhas 1 min
  183. 183 O roubo do vestuario 1 min
  184. 184 A roupa dos mendigos 1 min
  185. 185 A casa dos mortos 1 min
  186. 186 As botas fiadas 1 min
  187. 187 A matrona de Epheso 1 min
  188. 188 Tejo, Douro e Guadiana 1 min
  189. 189 Lenda da Lua e da Agua 1 min
  190. 190 Lenda do Milho e do Centeio 1 min
  191. 191 Lenda das manchas da Lua 2 min
  192. 192 Lenda de Fevereiro 1 min
  193. 193 Lenda da Serpente, do Sapo e do Sardão 1 min
  194. 194 Porque os cães se cheiram 1 min
  195. 195 Lendas dos animaes 1 min
  196. 196 A prova dos lobos 1 min
  197. 197 A obra de S. Pedro 1 min
  198. 198 O canto do gallo 1 min
  199. 199 Lenda da codorniz 1 min
  200. 200 Nossa Senhora e a solha 1 min
  201. 201 Lenda do manto de Nossa Senhora 1 min
  202. 202 Lenda dos tremoços 1 min
  203. 203 Lenda de Nossa Senhora 1 min
  204. 204 A submersão das cidades 1 min
  205. 205 A lenda dos ferreiros 1 min
  206. 206 Lenda da ponte de Domingos Terne 1 min
  207. 207 Lenda da amendoeira 1 min
  208. 208 A ponte da Misarella 1 min
  209. 209 Lenda de Simancas 1 min
  210. 210 Lenda de Lamego 1 min
  211. 211 Origem do nome de Lisboa 1 min
  212. 212 A sepultura dos dois irmãos 2 min
  213. 213 Fabula da raposa e do mocho 1 min
  214. 214 A aguia e a coruja 1 min
  215. 215 A raposa e o lobo 2 min
  216. 216 A raposa no gallinheiro 1 min
  217. 217 A raposa e o gallo 1 min
  218. 218 O lobo e a ovelha 1 min
  219. 219 Notas comparativas · Part 1 1 hr 2 min
  220. 220 Notas comparativas · Part 2 54 min