Contos Tradicionaes do Povo Portuguez
O caso do tio Jorge Coutinho
108. O CASO DO TIO JORGE COUTINHO Era uma vez uma mulher, que era casada e tinha um amigo, e quando o marido ia para o trabalho mandava chamar o amigo. Passou um pequeno, e ella disse-lhe: «Oh rapaz, que és mui malino, Queres-me ir a um recadinho?, Sim senhora, vou depressa; Mas guarde-me essa panella. «Vae a casa do tio Jorge, Que a tua tia Guiomar Que te manda lá dizer Que me venha cá fallar; Que o marido não 'stá em casa, Pois elle foi trabalhar;
Que te dê lá o convite, Que eu não tenho que te dar. O rapaz foi, e disse:, Oh meu tio Jorge Coutinho, Diz minha tia Guiomar Que lhe vá já lá fallar, Que o marido não 'stá em casa, Pois elle fui trabalhar; Que me dê cá o convite Que ella não tem que me dar., «Rapaz, tu vens-me enganar, Que ella havia de te pagar!, Se eu engano a meu tio Deus do céo permittirá Que o marido cedo venha E ache meu tio lá. O homem foi ter com ella; quando a mulher depois foi vigiar para elle sahir, viu o marido pela rua abaixo:
«Aqui d'el-rei, quem me acode Que eu morro sem confissão, Que aqui vem o meu marido, Mas vem c'os pés pelo chão. Se a comadre me encobre, Ou por artes ou por manha, Eu heide-lhe dar em janeiro Cinco quartas de baganha., Minha comadre bem sabe Que eu que sou segredeira, O que me cahiu no papo Cahiu-me na coalheira., Deus venha com meu compadre Vem em boa occasião, Estamos fazendo uma apósta Para ganhar um tostão., «Quem m'o dera pr'a tabaco,
E Deus sabe a precisão., É meu compadre metter A cabeça n'este talhão. E depois elle metteu a cabeça no talhão, e o amigo da mulher saiu para a rua. Agora vem o rapaz:, Oh minha tia Guiomar, Dê-me cá a minha panella Mais o convite com ella. Diz o marido:, «Não me dirás tu, mulher, Aquelle rapaz que quer?, Por ir a uma braza de lume Quer convite, e faz queixume. Diz-lhe agora o rapaz:, Bota lá pozes nos olhos A esse pobre innocente, Quem quizer alcoviteiros
Hade-lhe pagar adiente. Agora a mulher disse ao marido: «Toma lá este barretinho Chega á porta, põe e tira E dize esta cantiga: É gosto meu, E de minha mulher; Hade entrar e sahir Quantas vezes quizer. Agora responderam os visinhos: Quem o é, e consente É bem que lh'o chamem sempre; Quem não consente e não sabe Deus tenha d'elle piedade. (Ilha de S. Miguel, Ponta Delgada.) Notas 108. O caso do tio Jorge., Recebemos esta facecia colligida na Ilha de S. Miguel pelo nosso eminente zoologista Francisco de Arruda Furtado.
Conheciamol-a em prosa. Existe um pequeno fabliau sobre esta aventura, na litteratura franceza da Edade media.
End of chapter
Vesper stopped here. Sleep well.